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A MAIOR VIOLÊNCIA É A OMISSÃO
Alguns alunos do Curso de Turismo
da UFOP solicitaram informações sobre a Área de Proteção Ambiental
da Cachoeira das Andorinhas, devido à necessidade de desenvolverem um
trabalho para a Disciplina de Ecossistemas, sobre o estudo das Unidades
de Conservação em Ouro Preto e coube ao grupo pesquisar sobre a
APA-Andorinhas.Prontamente atendi a esta demanda. Acredito ser uma das
pessoas com maior conhecimento sobre a região da APA, sua realidade sócio-ambiental
e todo processo político de sua implantação. Fiz um relato da situação
atual, da fragilidade do processo contextualizado por anos de abandono
desde o Decreto Estadual 30264 de 1989, que dispõe sobre a sua implantação,
com ações tímidas do Poder Público, salvo aquelas configuradas
mediante nossa influencia através da participação e mobilização
social. Assim, estive sempre presente em todos os acontecimentos, por
ser morador da região e exercer a minha cidadania e, principalmente,
pelos 22 anos de convivência com todo este patrimônio histórico e
natural, o território de minha morada. Fico feliz de falar da APA,
acredito que relatar meu conhecimento e experiência pode contagiar, no
bom sentido, muitas pessoas, quebrar a dormência, estimular a participação
e união em prol de nosso objetivo comum, como diz o Projeto Manuelzão,
a volta dos peixes ao Rio das Velhas. Explicar o carinho mantido com as
Andorinhas desde minha adolescência urbana seria fazer um histórico de
vida, que não vem ao caso. Banhava-me respeitosamente naquelas águas
quando jovem ambientalista, já indignado, ao mesmo tempo em que crescia
o movimento no país, nos tempos de leitura do Manifesto Ecológico da
Associação Gaúcha de Proteção Ambiental e do levante a tão
apregoada industrialização, feita a qualquer preço, alheia à
compreensão das leis da natureza, nossa Mãe Terra. Voltando à orientação
aos alunos, disponibilizei material de nosso pequeno acervo bibliográfico,
mas que neste tema é bastante substanciado. E assim, combinamos uma ida
à região da Cachoeira das Andorinhas para conhecer a tão bela região,
principal nascente do Rio das Velhas, patrimônio natural situado no
entorno de Ouro Preto, às margens de sua história, legado ao abandono
e descomprometimento dos gestores públicos do município, mas guardado
no nosso coração Ouropretano. Passando pela Praça Tiradentes,
seguimos ao Morro de São Sebastião, vencendo a ladeira íngreme da
Serra do Veloso, descortinando toda a Ouro Preto, com o Pico do
Itacolomi ao fundo. À nossa direita, as ruínas invadidas do Morro da
Queimada, com suas pedras surrupiadas pelo crescimento desordenado e a
ocupação das encostas, até chegarmos a crista da serra, divisor de águas
dos rios das Velhas e Doce. Percorremos o bairro, em direção as
Camarinhas, onde ocorre a extração de quartzito, com uma pequena
nascente, quase morta, um braço do Córrego Andorinhas, margeando todo
o bairro, exposto ao esgoto, ao lixo de sua população. No topo do
morro, se seguíssemos a estrada encontraríamos a ferida aberta,
exposta aos nossos olhares distantes, da antiga mina de bauxita,
embargada no passado, mas freqüentemente é retirado cascalho pela
prefeitura para manutenção das estradas. Voltamos em direção a
Igreja de São João, a primeira nos tempos de Vila Rica, na cumeeira e
no outro extremo da Serra do Veloso, seguindo o asfalto que corta
paralelamente a serra, toda a área de captação das chuvas das outras
quatro nascentes do Andorinhas, sem o menor cuidado com as enxurradas e
com o surgimento de erosões. Antes de terminar a caminhada pelo bairro
parei para mostrar como os moradores esticam suas cercas para aumentar o
terreno, ou criam novos lotes dentro do provável Parque Municipal das
Andorinhas e Ruínas do Morro da Queimada, invasões fundiárias de
terras sem dono, sem fiscalização. Podemos também observar o vestígio
das picadas, malha tecida pelo transporte constante da lenha às margens
da estrada e caminhos. Descendo o vale, chegamos à Cachoeira das
Andorinhas, tão bela despencando em caverna, abrigo dos Andorinhões
que cederam bondosamente o nome às quedas do jovem rio, inquieto no
penhasco anunciado. Tão bela a vista da Pedra do Jacaré, com o vale ao
fundo, coberto de matas frondosas e margeado pela Serra do Espinhaço.
Avista-se longe, toda a região do distrito de São Bartolomeu, toda a
Apa-Andorinhas, todo o lugar de minha morada. Inicia o nosso retorno ao
carro estacionado mais acima, felizes com o encontro. Repentinamente
fomos abordados por três indivíduos armados, em um assalto violento,
absurdo, naquele lugar e momento. Reluto em acreditar, mas o trinta e
oito na cabeça e as ameaças de morte dissolvem aqueles sentimentos,
ancoro num mundo rasteiro, brotam os pensamentos. Deitado na pedra,
coagido, assustado, pensei em quantos passaram por isso e até quando
vai continuar. Pensei nas audiências publicas, reuniões, o Estudo Técnico
de Redelimitação do Parque, em todos empenhados em efetivá-lo e o
descaso da Prefeitura de Ouro Preto. Tudo me deu mais força. O Parque
das Andorinhas será realidade. Chega de omissão, chega dos estupros.
É direito de todos, a liberdade de passear na Cachoeira das
Andorinhas.. Felizmente as perdas materiais são contornáveis, o dano
moral superável. Ódio àqueles indivíduos, não sinto. Ficou uma
indignação profunda. Naquele lugar isto não poderia acontecer.
Cresceu minha vontade inabalável para promover mudanças. Chega! Era
preciso vivenciar o mais vil dos impactos recorrentes na Cachoeira das
Andorinhas, por falta de segurança. A maior violência não foi a minha
pessoa e a meus amigos acompanhantes, foi a tão belo patrimônio
natural, ao direito de contemplar a nascente do Rio das Velhas.
19 de fevereiro de 2003
Ronald de Carvalho Guerra
Projeto Manuelzão em Ouro Preto
Vice-presidente do CODEMA de Ouro Preto
Membro Titular do Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio
das Velhas.
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