PONTO DE VISTA DO
BATISTA
Pequenos rios não entram na
política ambientalista
Descontada a
sinceridade de uns poucos cujas palavras são confirmadas pela prática do
respeito à natureza, o que se ouve e se vê é apenas retórica destinada
a impressionar e garantir espaço na mídia, porque mais do que a prática
da boa relação com o nosso habitat, chique mesmo, para muita gente, é
dizer-se defensor do meio ambiente sem mais qualquer compromisso. Nunca se
gastou tanto em torno de um tema. Rios de dinheiro são canalizados para
congressos, fóruns, seminários e "folders" (palavrinha
invocada sô!), sem que ao menos um pouquinho disso seja destinado ao
objetivo final. Ganham os que se servem do problema, mas, este não é
solucionado!
No momento, o
alvoroço se faz quanto à poluição dos grande rios. Em Minas, o São
Francisco e o das Velhas, por exemplo, ganham espaço em todos os meios de
comunicação, com reuniões de prefeitos e autoridades do setor a
denunciar a degradação progressiva da qualidade da água naqueles rios.
A meu ver o enfoque está mal direcionado no tocante à poluição das
águas. Não que se deva fechar os olhos para o problema nos grandes
cursos de água, mas voltar os olhos exclusivamente para eles é querer
combater os efeitos, sem se incomodar com as causas. Muito lixo,
especialmente de natureza industrial, é lançado diretamente nos grandes
rios, mas o fato é que antes disso seus afluentes e subafluentes
canalizam para ali outro tanto de tudo que o homem descarta ao saciar sua
sede de consumo, sem contar o esgotamento sanitário, sem nenhum
tratamento. No entanto, não se vê preocupação com os riachos,
ribeirões ou regatos, pois estes sequer aparecem nos mapas e, por isso,
não rendem ibope. Como exemplo mais próximo temos o Maracujá, outrora
digno da classificação entre os rios pelo volume de suas águas, que
hoje não passa de esgoto a céu aberto, desolador e mal cheiroso aos
nossos sentidos. Nele era possível brincar sem o perigo de contrair
doenças, e, peixes eram encontrados com certa facilidade por pescadores
domingueiros. Na condição de afluente do Rio das Velhas e subafluente do
São Francisco, contribui um pouco para a poluição daqueles cursos
maiores. E, na mesma condição, quantos não contribuem para a
degradação das duas bacias? Em Belo Horizonte, a Lagoa da Pampulha é
outro exemplo de atenção mal direcionada. De nada adiante limpar a lagoa
se seus alimentadores continuam a lançar-lhe esgoto. Cuidar só do
principal é jogar dinheiro fora, assim como não resolvem as campanhas
sem um acompanhamento permanente das condições ambientais no que se
refere aos cursos d’água, por menores que sejam.
Na área social, um
paralelo pode ser estabelecido com a questão dos cursos de água. Melhor
distribuição da renda nacional por meio da oportunidade de trabalho,
remunerado de maneira justa, seria a garantia de um mercador consumidor
fiel. Setor produtivo, trabalhadores e consumidores são interdependentes.
E o ponto vulnerável nessa interdependência é o salário. Se o
trabalhador não consegue comprar o que ele mesmo produz, quebra-se o
equilíbrio que deve haver entre o setor produtivo e o mercado consumidor.
Não se resolve esse desequilíbrio com atenção voltada exclusivamente
para o fabricante ou para o consumidor. Mas o povo, cujos representantes
não têm escrúpulos em conceder a si próprios remuneração altamente
concentradora de renda, não pode esperar que sua economia como um todo
seja equilibrada e aberta a todas as camadas sociais. Sessenta mil como
remuneração mensal no bolso de um deputado é uma paulada na cabeça de
todos os trabalhadores e, por consequência, também na de quem os
emprega.
Tanto na questão das
águas quanto na questão social, as atenções estão voltadas para o
lado errado.