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PONTO DE VISTA DO
BATISTA
Tapete de serragem
Embora muitos,
incluindo-se grandes dicionários, insistam na afirmação de que a
quaresma vai da Quarta-feira de Cinzas ao Domingo da Páscoa, ela
termina mesmo no domingo, chamado "de Ramos" que, neste ano é
o dia quatro de abril. Sabendo-se que quaresma significa quarenta,
exatamente o número de dias do período em questão que, por sua vez,
simboliza tempo igual durante o qual, segundo os evangelhos, Jesus
permaneceu no deserto a fazer penitência, não entendo o porquê da
confusão. Do Domingo de Ramos ao Domingo de Páscoa é outro período
distinto: Semana Santa, Semana Maior ou Semana da Paixão
Quando se fala em
Semana Santa, Ouro Preto é destaque no cenário nacional com a
realização dos ritos próprios da ocasião, sem se afastar muito de
antigas tradições não integrantes da liturgia oficial, mas que
enriquecem sobremaneira as celebrações da paixão, morte e
ressurreição de Jesus. Na cidade em que se respira arte, esta não
poderia ser esquecida nos muitos momentos de reflexão que as
celebrações inspiram. E a vitória da vida sobre a morte, ou seja, a
Ressurreição de Jesus, lembrada na manhã do Domingo de Páscoa com a
procissão do Santíssimo, inspirou, em Ouro Preto, a criação de
tapetes multicoloridos por onde transita o sacro cortejo. Resgatada há
exatos quarenta e um anos, a tradição remonta às festas de
inauguração da igreja-matriz de Nossa Senhora do Pilar, ou, mais
precisamente, ao célebre Triunfo Eucarístico realizado em maio de
1733. Seu trajeto, da igreja do Rosário à matriz do Pilar, foi marcado
com a confecção de tapete especialmente confeccionado com flores,
papel picado e outros materiais. Dali em diante, por ocasião das
procissões do Santíssimo, na Ressurreição e no Corpus Christi, o
tapete se tornou em característica constante, até que foi proclamada a
República e como conseqüência houve a separação entre Igreja e
Estado. Aos poucos, a tradição se quebrou, ficando tão somente a boa
vontade dos fiéis que ornamentavam com flores espalhadas à frente suas
casas.
O retorno à antiga
tradição só aconteceu em 8 de julho de 1963, quando então se
realizou a grande festa da Coroação Pontifícia da imagem de Nossa
Senhora do Pilar. Para sua confecção, mobilizou-se toda a cidade que,
praticamente, não dormiu na noite anterior, ocupando-se a população
com mil e uma tarefas para que tudo saísse conforme o idealizado. Lado
a lado, nas ruas centrais por onde passaria a procissão triunfal,
pessoas de diferentes posições sociais e de todas as profissões,
prefeitura municipal, empresas e empresários, trabalharam na medição,
limpeza das ruas e montagem do tapete com o apoio dos que transportavam
materiais, faziam a comunicação entre as equipes, forneciam lanches
quentes (o frio era intenso) e até dos que proporcionavam
entretenimento, como o grupo de seresta que percorria as ruas. Ao
amanhecer do dia oito de julho daquele ano, o tapete, feito com
serragem, palha de arroz, borra de café, flores, papel picado e outros
materiais, estava pronto e assim resgatada a tradição que se firmou e
se preserva até hoje. A volta do tapete foi idealizada, portanto, por
um grupo de pessoas da comunidade paroquial com o apoio espontâneo de
toda a população, então voltada para a realização de tão
importante evento religioso.
A instituição
oficial, que diz ter resgatado a tradição do tapete de serragem, ainda
nem existia e, quando foi criada, a comunidade ouropretana já havia
aprimorado a técnica aplicada em 1963. Se o "filho" fosse
feio, outro pai não apareceria!
nbatista@uai.com.br
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