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Venda do Dom Bosco requer explicações
No dia 31 de dezembro do ano
passado, a Ordem Salesiana fechou as portas do antigo Colégio Dom
Bosco, que vinha funcionando como hospedaria e centro de convenções.
Dispensou empregados e silenciou-se sobre o destino da instituição.
Mas, além desta notícia, outra surpresa maior só agora parece se
confirmar: a Ordem teria vendido as terras restantes da antiga
fazenda, de origem colonial para a construtora Alicerce, conhecida
por sua atuação no mercado imobiliário, incorporando e executando
prédios e também loteamentos e condomínios, especialmente na Região
Sul de Belo Horizonte. O prédio do antigo colégio teria sido alugado
e seria restaurado e com uma nova destinação de uso, a ser definido
pela empreiteira. Alguns terrenos, em limite com a Br-356, um pouco
mais adiante da portaria de entrada, teriam sido adquiridos pela
Família Boroni, de Ouro Preto. Os salesianos já haviam vendido
parcelas das terras anteriormente.
Surpresas, algumas pessoas de
Cachoeira do Campo procuram informações que a Ordem Salesiana não
divulga. Afinal, como se deu esta venda e o que será implantado nos
terrenos, quais os impactos para Cachoeira. Fala-se em um
loteamento e que o prédio poderia ser um hotel. Mas o fato,
concreto, é que a Ordem Salesiana nada fala, não explica, não
responde, embora exista o entendimento de que seria educado e cortês
que tivesse prestado informações à Prefeitura de Ouro Preto, à
comunidade e a outras instituições e autoridades, se não têm nada a
esconder. Até porque a empreiteira terá necessariamente que fazê-lo
se quiser realizar ali um grande empreendimento imobiliário, que
precisará ser licenciado.
É salutar lembrar da história
do Dom Bosco e da presença da Ordem na região. O prédio, destinado a
ser o quartel da tropa paga da Capitania, o Regimento de Cavalaria
de Guardas do Governo Colonial, foi construído em 1779 pelo então
governador, dom Antônio de Noronha. Aproveitam-se os terrenos bons
para pastagens e a criação de cavalos, com o quartel situado em
altiplano, com estratégica visão do entorno. O prédio recebeu a
visita de dom Pedro I em abril de 1822, que veio a Vila Rica pedir
apoio contra as Cortes Portuguesas. Determinou a instalação de uma
coudelaria, chegando a importar cavalos árabes para o início da
iniciativa. Foi visitado também por dom Pedro II, em 1881, que fez
uma famosa viagem à região. Determinou a instalação de uma escola
agrícola, que também não prosperou. Abandonadas as instalações, dom
Pedro II acabou doando-as ao Governo do Estado, que fundou nova
escola agrícola, a Colônia Cesário Alvim, que também não perdurou. O
Governo do Estado passou então as instalações para a Ordem Salesiana,
em 22 de maio de 1893, com o compromisso da Ordem de instalar e
manter um colégio para meninos pobres. Doou também a antiga casa de
campo dos governadores da Capitania, no outro extremo de Cachoeira,
que dom Rodrigo José de Menezes, governador, havia restaurado em
1773, ampliando construção primitiva de 1731. A Ordem assumiu o
compromisso de ali instalar um colégio para meninas pobres, função
assumida pelas irmãs Filhas de N. S. Maria Auxiliadora. Para servir
à casa dos governadores foi construída ponte de pedra sobre o rio da
cachoeira, com três arcos plenos e 30 metros de cumprimento, ainda
hoje em uso, permitindo o acesso à parte elevada de Cachoeira do
Campo. Outras reminiscências da antiga casa, que teria sido
derrubada em 1911, como uma piscina de pedra e muros antigos, ainda
existem.
Nesta casa de campo, Joaquim
Silvério dos Reis, em 1789, delatou os inconfidentes ao Visconde de
Barbacena, governador e capitão-general da Capitania. Outros
episódios históricos aconteceram neste local. Ali também
apresentaram suas denúncias contra os inconfidentes Ignácio
Pamplona e Basílio de Brito Malheiros. Ambos locais são aprazíveis,
com boas terras e outros recursos naturais, de água e pastagens. No
Dom Bosco existe uma famosa cachoeira, freqüentada pelos moradores
durante muitos anos.
Já há alguns anos a Ordem
Salesiana desistiu do Colégio Dom Bosco, por onde passaram gerações
de mineiros ilustres, no seu famoso internato. E vinha o antigo
Colégio funcionando como hospedaria e centro de reuniões, o mesmo
acontecendo com o Colégio das Irmãs, hoje rendoso centro de
convenções para o Turismo de Eventos e Negócios. A Ordem tem
revelado que foi o governador Magalhães Pinto (1960/1966) que passou
as escrituras definitivas das propriedades.
O que cabe indagar, se ainda
for possível, é o que será feito nos terrenos e qual a destinação de
uso do antigo quartel, já desfigurado no seu pátio interno. O prédio
não tem tombamento mas é uma edificação antiga, com técnica
construtiva colonial, pedra e madeira e, historicamente, é o
primeiro quartel militar, de um regimento do qual se originou a
Polícia Militar de Minas Gerais. E necessário ainda verificar se
não teria sido mais conveniente o uso cultural, comunitário ou para
fins acadêmicos, pela UFOP, que não tem mais onde se expandir em
Ouro Preto. É preciso saber ainda o que pretende a empreiteira e
qual o tipo de loteamento, que parece ser sua intenção. As
autoridades municipais de Ouro Preto foram informadas? Restam todas
estas indagações, sem o que não é possível avaliar os impactos
negativos ou positivos de uma nova ocupação, certamente de grande
porte, para toda a histórica área do antigo quartel. Mas a região,
seguramente, perde mais um de seus referenciais históricos mais
significativos.
(texto do jornalista Mauro Werkema
17.2.2011)
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