Vida de ilusões
A situação do povo
brasileiro chegou a nível tão crítico, que a parte sã da
população, não envolvida em crimes graves, corrupção, violência,
tráfico, etc, - felizmente, a maioria - está dividida em duas
categorias: a dos inadimplentes, por sua vez subdividida em
circunstanciais e contumazes, e as vítimas de todo processo, também
subdivididas em equilibradas e desesperadas. Tranqüilidade mesmo só
nos extremos: os que têm em excesso e não estão nem aí para o que
acontece e os miseráveis inconscientes, porque não conhecem o lado
oposto da situação vivida em que vivem. É triste constatar que o
país pujante, cuja idéia se repassava nos bancos da escola há
cinqüenta anos, e que se dizia em construção, tenha se resvalado para
o falso e mergulhado na decadência moral, sem ter alcançado, pelo
menos em parte, a prosperidade material para a maior parte da
população. Descemos antes de subir! Às gerações que nos sucederam
como escolares foi apontada uma miragem e para ela fomos todos
direcionados, advertidos de que todo cabedal antes adquirido não
passava de entulho intelectual e falso moralismo, pois a prosperidade
deveria ser palpável e imediata, queimando-se etapas no processo do seu
alcance. O resultado aí está. Não havendo como lançar-se a semente
e, no dia seguinte, colherem-se os frutos, a vida deixou de ser tocada
no presente com vistas ao futuro. Inverteram-se os valores, para que
tudo fosse feito de acordo com o futuro imaginado. Na linguagem crua de
nossos avós, confia-se a manutenção e consecução dos interesses
pessoais, ou coletivos, ao ovo que a galinha ainda poderá botar!
A inusitada invasão do jardim
do Palácio da Liberdade por uma dona de casa, que arremessou seu Fusca
contra o portão, limite entre o poder legal os que nada podem, é bem
um sinal do que acontece em grande parte dos lares brasileiros, levada a
um situação de desespero porque confiou no caminho apontado pelo
sistema, ou devido a circunstâncias adversas, porém com a mesma
origem. Mesmo admitindo-se erros no controle doméstico daquela
família, vê-se que ainda assim ela é vítima de uma situação
externa: o marido e um filho doentes e internados; uma filha também
doente, a morar na mesma casa com filhos pequenos e marido desempregado,
mais uma senhora idosa (mãe da dona da casa). Com a pensão do marido e
da mãe que, somadas, não vão além de dois salários mínimos, aquela
senhora deve fazer o impossível para que não falte comida para os
seus. O nivelamento das pensões e aposentadorias por baixo produz a
dependência dos idosos junto aos filhos, mas o desemprego destes
últimos torna aqueles os provedores do sustento geral. Acrescente-se ao
quadro a ocorrência de enfermidade crônica, sem que se obtenha da
saúde pública uma resposta satisfatória. Para completar, a família
teria uma casa, que poderia lhe render aluguel. Está fechada porque o
último inquilino não pagou os aluguéis e ainda deixou uma dívida de
mais de quinhentos reais em contas de luz. São inúmeros os casos como
este. Para se manter o padrão ao qual se recusam renunciar, pessoas
não hesitam em dar esse tipo de golpe. E as vítimas costumam ser as
mais necessitadas. O desespero da dona de casa explodiu daquela forma,
tornando-se público, mas há muitos mantidos em silêncio e também
merecedores de atenção.
Essas tragédias familiares,
em parte, são reflexo da decadência que acontece em toda a sociedade,
na mesma velocidade com que se processa a revolução tecnológica. Como
parte do todo e altamente influente, o quadro político também se
deteriora e determina mais queda na qualidade de vida e, o que é pior,
no nível da cidadania.