Estava no bem
bom das férias com retorno ao trabalho previsto para o fim da
primeira quinzena de janeiro, quando, por telefone, chega pedido de
socorro da editora do jornal para edição não prevista, já que toda a
equipe entrou em férias coletivas neste período de festas. Em
férias, ou não, quem se mete a escrever para o público é, mal
comparando, com o soldado que pode ter suspensa sua folga em vista
de situação emergencial. São ossos do ofício.
O verão acaba de
chegar e o ano não tarda a acabar, abrindo caminho à chegada do que
deverá fechar a primeira década do século XXI. É nesses últimos dias
de cada ano que, tradicionalmente, se fazem os esconjuros aos fatos
indesejáveis do ano em curso e os prognósticos (sempre favoráveis)
para o ano seguinte.
Há muito que,
nestas terras "descobertas" por Cabral, a cada fim de ano, é
acalentado pelo povo o sonho de mais seriedade da parte dos homens e
mulheres, que assumem o compromisso, por meio do voto ou da carreira
profissional, de conduzir os destinos deste país. Infelizmente, a
cada final de ano, se constata o crescimento da coleção de
escândalos, nem se ligando os envolvidos à possibilidade, cada vez
maior, de prosaica câmera a registrar flagrantes grotescos dos
pacotes de dinheiro a trocar de mãos e, destas, passar ao recôndito
de peças íntimas. Não lhes incomoda a exposição ao público e nem a
indignação deste, pois sabem que a lei – por eles próprios feita –
os favorece. Estão blindados com impunidade! Instalam-se CPIs,
promete-se apuração rigorosa dos fatos, muito blá-blá-blá e nada! Os
pilantras ganham mais notoriedade e, na eleição seguinte, são
novamente eleitos.
A tentativa de
impedir candidatura de pessoas com "fichas sujas" na Justiça nem fez
"cosquinha" na consciência dos políticos, pois está em suas mãos a
decisão. E, duvido que votem contra si próprios! Mais de um milhão e
trezentas mil assinaturas, que acompanham a ação popular, serão
jogadas no lixo.
Pequenos
municípios são maioria entre os mais prejudicados por má gestão,
decorrente de ignorância, improbidade e corrupção. Comunidades
inteiras sem saneamento básico, serviços de saúde ausentes ou
precários, escolas abandonadas à boa vontade das professoras, embora
verbas cheguem do governo federal, para atender aquelas
necessidades. Tais municípios, a exemplo das esferas mais altas onde
prevalece o continuísmo das oligarquias, permanecem nas mãos de
poucos, eventualmente sob revezamento "democraticamente" efetuado
por meio das urnas. Não há como fugir da situação dentro do sistema
em vigor. Contudo, ainda há quem insista que a culpa de tudo isso é
do eleitor, que não sabe escolher. Ainda hoje li, de conceituada
jornalista, texto a conclamar eleitores a escolher melhor os
candidatos nas eleições do próximo ano. Mas, como, cara pálida?
Ainda que a grande maioria não fosse ligada tão somente às páginas
do futebol, não haveria chance para melhor escolha, porque o eleitor
não tem como fugir do "prato feito"
apresentado pelos partidos (leia-se cúpulas partidárias). O que
interessa aos "donos" dos partidos é a capacidade de o candidato
amealhar votos. Probidade, preparo e competência não são
prioridades.
A cada escândalo
surgem conversas sobre a necessidade da reforma política, que nunca
se faz, porque não convém, à classe política, a mudança no status
quo. Há até quem fale em outra Constituinte. Se independente do
Congresso, formada por cidadãos entre o idealismo e o notório saber,
até que pode ser o caminho para que o Brasil tenha salvaguardas
contra a eleição de pessoas que, por seu caráter e passado pouco
elogiável, nunca deveriam ser candidatas a cargo eletivo.
Se pretendem
entregar a incumbência ao Congresso, é melhor deixar como está.