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Os
120 anos da Abolição da Escravatura
Alexandre Braga*
No Brasil a mistura étnica aconteceu vitoriosamente. Somos um povo
ao mesmo tempo generoso e cheio de contradições, onde vivemos
cercados de abundancia, mas com grandes bolsões de miséria. Somos a
terra da integração, porém com enormes abismos que separam negros e
brancos, de forma visível e invisível. Agora que chegamos ao pós-120
anos de abolição da escravatura essa integração que lhe é peculiar
coloca o Brasil no centro do debate, em que seu impasse étnico
transformou-se no indicador que pode levar o país ao futuro como
nação civilizada ou fincar, de vez, nossa pátria, linda por
natureza, nos erros do passado; dos quais a escravidão e o racismo
são os mais caros e dolorosos na trajetória social brasileira.
Certamente o primeiro passo na correção desses erros tem início com
o entendimento de que o fim da escravatura se deu como resultado de
uma complexa conjunção de fatores, cuja dimensão política
contribuíram, em graus variados de escala, e importância, para o
lento processo de definhamento da prática escravista em nosso país.
Alguns desses fatores, como reconhece a nova historiografia, tiveram
caráter primordial na saga pela liberdade: as rebeldias negras. Foi
através das rebeldias dos escravos – chamadas de quilombagem – que
95% da prática escravista perdeu sua força enquanto geradora de
riqueza para os escravocratas e latifundiários. Outros personagens
(os estudantes, os intelectuais, a maçonaria e os artistas)
participaram ativamente nesse maior ato de desobediência civil que o
Brasil tinha registrado. Já as doenças endêmicas (sífilis, malária e
os maus-tratos físicos) foram responsáveis pelo dizimamento em massa
da maior parte da nossa escravaria.
Apesar desse
bem-sucessido engajamento do povo na luta contra a escravidão, e de
termos consolidado certos passos na vitória final contra as várias
formas de preconceito, ainda não aconteceu de fato, ou seja, no
dia-a-dia dos negros e negras brasileiros, a abolição da
escravatura. A realidade concreta, nas vilas e favelas das
metrópoles é outra, e comprova que a abolição aconteceu do ponto de
vista teórico, haja vista que são esses mesmos negros e negras que
sempre constam em todos os índices do baixo padrão de qualidade de
vida, emprego e a falta dele, renda e moradia minimamente saudável.
Portanto, é preciso reconhecer que a exclusão substituiu a
escravidão, com igual teor de perversidade. E não precisamos falar
muito quando o assunto é exclusão porque, como todos acompanham e se
indignam todos os dias, esse é o grande gargalo nacional. Daí que se
queremos justiça social, precisamos urgentemente implementar ações
que façam a correção dessa gigantesca injustiça cometida à população
negra. Com a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial vamos
começar, senão de forma como deveria, pelo menos de forma
absolutamente necessária para colocar o Brasil nos rumos dos trilhos
da cidadania efetiva para todos, como já fazem as grandes nações
cumpridoras dos preceitos do Estado Constitucional e Democrático de
Direito.
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Alexandre Braga é coordenador de Comunicação da Unegro-União de
Negros Pela Igualdade-MG
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