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Do agregado ao CAIAF
Rui Nogueira
Eu era menino e morava na fazenda do senhor Eleutério. A família do
meu pai, éramos muitos irmãos, não era a única a ter a sua casa ali
naquelas terras.Não havia leis trabalhistas na situação de
“agregados” vivida pelos moradores, nem mesmo aquela coisa formal de
capital/trabalho pois, em princípio, as famílias tinham como meta o
criar os filhos com alimentos e dignidade. Não imperava a ambição
desenfreada do “ficar rico” a qualquer preço.
Em geral, cada um dos agregados atuava mais numa área. Por exemplo,
o Giovani era quem criava e cuidava dos porcos para o atendimento da
fazenda, dos moradores e venda. Todos, inclusive o meu pai, tinham
os seus porcos particulares de raça com muita gordura. (Que foi
exterminada com a história de peste suína). O meu pai sacrificava um
porco, toda a gordura era derretida e colocada em latões de 18
litros. No meio da gordura depositavam pedaços da carne que, assim,
se conservava por muito tempo.
Toda comida era feita com a gordura do porco. Óleo era usado,
exclusivamente, na salada. Sempre eram preparadas as lingüiças e os
chouriços feitos com sangue de porco.Era uma porcada limpa que comia
chuchu, abóbora, milho, frutas da época. Não havia rações. Para
criá-los não podia haver só um. Com dois, a concorrência pela comida
fazia cada um comer mais que o outro e eles engordavam mais rápido.
O mais forte comia mais e morria primeiro.
Os moradores da fazenda recebiam, todo dia, leite para todas as
crianças, fubá para fazer as polentas, milho para as galinhas
criadas soltas e com grandes ninhadas. Minha mãe vendia ovos e
frangos.
Para o trabalho com tração animal, era usado o burro para puxar o
arado. Os moradores cuidavam. Se queriam cavalo só permitiam o
cruzamento da égua com o garanhão eqüino. Para o trabalho de carga
era o burro que cruzava com a égua originando as mulas que são
estéreis.
Os arados, no fim de tarde, eram deixados nos campos e as mulas e
burros vinham com arreios leves para ficarem próximos à casa. Eu
gostava de me sentar nos esteios do estábulo para ver os burros
comendo o milho e fazendo a barulheira danada da mastigação.
Havia uma área com cafezal antigo que era a renda principal mas as
plantações eram diversificadas e a fazenda dependia muito pouco de
fornecimento externo. Ração, nem pensar. Não existia. Fazenda ainda
não era um negócio do sistema financeiro. A principal técnica
agrícola era a da rotação de culturas e o pensamento dominante era a
da busca de auto-suficiência básica “temos comida com fartura”. Na
fazenda havia uma escolinha para todas as crianças da região.
Saudades da infância sempre é uma coisa gostosa mas, neste caso, lá
da fazenda uma reminiscência de uma situação que acabou. As
lembranças são boas mas o hoje é melhor?
Meu pai não era a única família na fazenda, consigo contar quase
trinta moradores trabalhando e por que não dizer, vivendo bem.
Nunca vi miséria entre nós. O espírito era comunitário e sempre uns
ajudavam os outros. Não havia a preocupação de competitividade mas o
da simbiose, conjunção de esforços em busca de boas colheitas e a
convivência saia do âmbito de realizarem as tarefas e trabalho para
o futebol que reunia a garotada e adultos no campinho nos fins de
semana e nas festas comemorativas. Nascimentos, casamentos eram
festejados juntos e as mortes choradas por todos.
O velho dono adoeceu e faleceu e a fazenda acabou na mão de um jovem
filho para administrá-la. Ele chegou com a mentalidade do século XX
de sucesso sinônimo de riqueza e ter dinheiro. Não entendia da
engrenagem de convivência comunitária que havia. Começou a impor o
clima patrão/empregado e logo surgiram desavenças e o meu pai, como
outros, acabou saindo da fazenda encaminhado para uma cidade
próxima. Não poderia ser diferente quando a minha mãe extraiu um
dente na cidade e teve hemorragia na volta.
Solicitada uma charrete para que não voltasse a pé ela foi negada
porque “charrete não era para servir empregado”.
Como ficou a fazenda? Os pés de café foram derrubados para dar lugar
à “agricultura de resultados”. O bom depósito de argila existente
naquela terra fez surgir uma cerâmica. As terras foram arrendadas
para usinas de açúcar próximas e instalou-se a monocultura com o
aluguel da gleba depositado mensalmente na conta do banco para o
proprietário.
A monocultura não usa mão-de-obra local. Chega o trator para
preparar o terreno, outra máquina vem fazer a semeadura, os aviões
pulverizam os inseticidas, as colheitadeiras vêm recolher a cana. Há
grande desemprego, com os moradores tradicionais jogados para as
periferias das cidades.
Firmou-se a era das grandes fazendas desabitadas. Esta é a principal
característica das monoculturas. É a implantação do CAIAF. Complexo
Agro-Industrial-Agricola-Financeiro nas fazendas.
O objetivo não é produzir alimentos. Funciona, primordialmente, para
atender interesses externos com segmentos voltados para produzir
rações para bichos (soja), e nenhuma intenção em atender ao desejo
inerente de felicidade das pessoas e o de permitir vida em harmonia
para criar filhos com dignidade.
CAIAF é para produzir resultados financeiros para o oligopólio das
transnacionais.
Ah que saudades da minha terra em anos que não voltam mais.
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