Fim de tarde da quinta-feira, vésperas de
carnaval, e carnaval antecipado em grande parte deste país grande,
bobo e descuidado quando, de Brasília, vem a notícia de que o
Supremo Tribunal de Justiça decretou a prisão do governador do
Distrito Federal.
Há alguns meses, a mídia bombardeia o público
com informações acerca da corrupção dentro do governo do Distrito
Federal. Cenas repetidas a todo momento, na televisão, mostram o
governador e seus auxiliares mais próximos a receber e distribuir,
entre si, pacotes de dinheiro, imediatamente escondidos dentro das
roupas íntimas, dentro das meias, nos bolsos dos casacos. É a
propina corrupta derivada das negociatas em torno de serviços
prestados ao Distrito Federal. Chegam ao ridículo, senão à
blasfêmia, da reza coletiva com pedido de perdão pelas fraquezas,
sem que o arrependimento se mostre. Mas arrependimento seria
desistir do crime e devolver o dinheiro. E quem quer isso fazer?
O governador e chefe do bando chega a dizer
que perdoa para ter perdoados seus pecados, mas a propina ele não
devolve sob alegação de serem recursos para a compra de panetone
para os pobres. Com ampla maioria no parlamento distrital, para ele
não é difícil escapar ao processo político, que poderia resultar em
impeachment, mas o laço das investigações se aperta aos poucos em
torno do seu pescoço e do seus asseclas. Sem deixar de insistir na
inocência e apregoar ser vítima de armação, a confissão do crime ele
a faz de forma indireta mediante tentativa de suborno a testemunha,
para que esta diga serem montagens as cenas mostradas ao público e,
dessa forma, o depoimento vire a seu favor. E é aí que a sombra do
comprometimento com o esquema criminoso se faz mais densa, não lhe
valendo nem a garantia do nome contra maus agouros, pois quem não
deve não teme a ponto de arrombar a própria bolsa, para sair limpo
da investigação em curso. Para impedir a quem obstáculos põe à
Justiça, recurso mais eficiente não há que a cadeia; e é o que se
faz nesta tarde contra o governador, que se julga acima da lei.
A quem vê e ouve custa crer verdade seja, mais
semelhante a peta de primeiro de abril nas brincadeiras de Momo que
chega. Em meio à incredulidade geral diante do insólito e inédito -
governador, em pleno exercício cargo, preso pela Polícia Federal -
destaca-se a primeira reação do presidente da República, que
considera ruim, para a imagem política do país, a prisão de um
governador; por isso, diz ter recebido a notícia com tristeza.
Não se viu ninguém comentar a declaração
presidencial, e o lamentável de suas palavras tem continuidade na
falta de atenção da opinião pública na gravidade daquelas palavras.
Elas revelam a inversão de valores, que há muito macula o espírito
nacional! Verdadeiramente ruim para a imagem do país é o roubo
descarado, a corrupção e a antiética praticados por agentes
políticos sob o manto da impunidade! A punição deveria ser a
consequência legal - por que não natural? - do crime, não importando
o status sócio-político do criminoso. E o presidente a dizer ter
ficado triste com a prisão do governador! Faça-nos o favor! Deveria,
sim, chorar pelos indícios claros da corrupção e a tentativa de
mascarar a verdade durante as investigações. A prisão do principal
envolvido é sinal, felizmente, de que outros rumos pode tomar a
relação dos políticos com o poder. Basta tirar-lhes a blindagem
sacrossanta, que os torna diferentes do restante do povo,
inatingíveis, impunes.
E é pena que o carnaval não mais seja o
mesmo, pois, ainda que em cima da hora, se conservado no mesmo
formato e nas mãos do povo, o episódio seria objeto de críticas, por
meio de músicas, fantasias e alegorias. Seria prato cheio para
compositores, foliões e agremiações carnavalescas