PONTO DE VISTA DO BATISTA
Transposição do Amazonas e
não do "Velho Chico"
Fustigado por secas
inclementes, intercaladas de rápidos períodos de chuva também
causadores de tragédias, quando na mesma proporção da secura, o
nordestino consome seus dias na esperança de, um dia, ter a água
perene a jorrar da bica ou da torneira, para irrigar seu pedaço de
chão, manter-se vivo e dar vida onde vive. E essa esperança, de um
lado heroicamente mantida pela fidelidade sertaneja, é ao mesmo
tempo alimentada e explorada por oportunismos políticos de cores
diversas, razão pela qual a solução do problema se situa no futuro.
Se a esperança é última que morre, difícil não é mantê-la enquanto
um sertanejo houver de pé! Água não jorra para o povo, mas votos
correm para os espertos!
A situação é mais ou menos
como a da causa repassada pelo velho advogado ao filho recém-formado
na mesma profissão. Na anedota, pouco depois de assumir o
escritório, o jovem advogado, muito eufórico, se chega ao
antecessor: - pai, obtive minha primeira grande vitória! Consegui
encerrar aquela causa, que lhe consumiu grande parte da vida – ao
que o pai responde: - Na verdade, filho, você acaba de matar a
galinha dos ovos de ouro, pois foi com aquela pendenga que eu criei
a família e o formei.
Antes e depois dos anéis
do imperador, que não fizeram irrigar a terra e secar as lágrimas do
sertanejo, muito dinheiro se perdeu em paliativos, quando não em
desvios de consciência que permitem a engorda de contas terceiras.
Açudes rompidos ou não construídos, poços sem água ou dentro de
grandes propriedades, caminhões pipas a fazer o jogo de pequenos
políticos, cestas básicas em mãos cheias, frentes artificiais de
trabalho e de maracutaias. Toda uma sorte de engabelação já foi
aplicada contra o nordestino, que foge no pau-de-arara, quando se
cresta a terra e a fome aperta, mas retorna, quando se sabe o chão
natal tinto de verde! Até fazedores de chuva, de araque, já teve o
sofrido nordeste.
Anuncia-se para janeiro
próximo o início das obras, ditas, de transposição de águas do Rio
São Francisco, à revelia da contestação colocada frente ao que se
considera grave agressão ao combalido curso d’água, definido como
"de integração nacional". E o grito de alerta puxa a denúncia, que
antevê o desvio da água dos seus fins sociais depois de desviadas do
curso natural. A julgar pelas críticas, denúncias, e sem querer
fazer trocadilho, despe-se um santo, mas, ao contrário do mote
popular, não se veste outro.
Contudo a solução pode
estar em outro ponto do mapa. Em sua maior extensão, corre por
terras brasileiras o mais caudaloso rio do mundo, do qual pequena
parte poderia ser transposta para a região do nordeste, sem qualquer
prejuízo ao seu curso e ao meio ambiente. A partir da foz do rio
Amazonas, em tubulões submarinos, água doce chegaria a pontos mais
convenientes do Maranhão, Piauí e Ceará, por exemplo, de onde seria
distribuída para formar lagos e perenizar rios temporários em toda a
região atingida pela seca. Consumada com sucesso a construção de
grandes pontes sobre o mar e de túneis abaixo do mesmo, bem como de
outras conquistas arrojadas, creio ser a idéia consonante com
viabilidade técnica. Havendo condições técnicas, a obra poderia ser
executada mediante esforço nacional, somando-se a capacidade de cada
unidade federativa, grandes empresas, universidades e Forças
Armadas, pois o problema da seca transcende o nordeste, atingindo
todo o país com as conseqüências do baixo índice de desenvolvimento.
Quando me ocorreu a idéia
em fins dos anos oitenta, considerei-a maluca, mas voltei atrás
cerca de trinta dias depois, ao ler proposta praticamente idêntica
de engenheiro francês. A única diferença é que a água seria
transposta para a África!