Ameaça da máquina
Fim de ano, tempo de
esconjuração de desacertos e frustrações mais recentes em paralelo
com projeções de novos sonhos para futuro imediato, pode ser também
ocasião propícia para esticada mental a futuro mais distante, em
exercício de futurologia muito a gosto do ser humano, eterno
insatisfeito com a atualidade. De braços dados com o frenético surto
de novidades disponibilizadas pelo avanço tecnológico, empreendemos
um salto de cinqüenta anos, que nos coloca diante situações
surpreendentes, introduzidas pela capacidade humana de transformar
cenários e mudar roteiros no teatro da vida.
Uma das mudanças pode ser
o desaparecimento - quem sabe? - total do dinheiro em espécie com a
adoção de alguma engenhoca de crédito e débito, a ser usada em
transações no comércio em geral, na relação com bancos e de
indivíduo para indivíduo. Só não gostaria dessa novidade, o
comerciante maroto que já tem pacote de balas junto ao caixa para
substituir moedinhas na hora do troco! Mas a questão do dinheiro e
suas implicações são apenas parte de verdadeira revolução na maneira
de viver da espécie humana, pois, a essa altura, máquinas
inteligentes serão capazes de realizar qualquer tarefa, cabendo ao
indivíduo apenas a programação e comando. Assim como hoje, nem a
todos será possível a aquisição dos mais avançados e sofisticados
equipamentos, seja pelo poder aquisitivo abaixo do custo das novas
necessidades ou pelo nível intelectual ou de escolaridade
incompatível com as exigências de funcionamento das máquinas. Aos
que as possuírem, entretanto, recairá pesado ônus, que deve
ultrapassar a simples questão do custo de aquisição e manutenção, de
acordo com previsão que – esclareça-se - não é deste escriba, que
ousa apenas deduzir, a partir do estágio atual, como desaparecerá o
dinheiro.
É de cientista inglês,
cujas declarações a respeito, lançadas na web, vêm causando o maior
furor! David King, a serviço do governo britânico, diz que, em 2056,
robôs providos de inteligência artificial estarão totalmente
integrados à vida social humana, o que deverá gerar, da parte deles,
reivindicações de direitos equivalentes aos da nossa espécie. E
afirma que os robôs chegarão a ter "direitos humanos" (ou seriam
direitos robóticos?), bem como deveres de cidadania como votar e
pagar impostos. Além do descrédito, a indignação é o forte da reação
contra tal possibilidade, lembrando que, dificilmente, os direitos
humanos terão sido respeitados em sua totalidade àquela altura da
história da humanidade.
Cobertos de razão estão os
que se levantam contra tal hipótese. Ainda que não restasse um só
indivíduo desrespeitado quanto aos direitos humanos, a existência de
máquina que pudesse competir com quem a tivesse criado seria o fim
da picada, pois, ironicamente, estaria dado o golpe de morte à
liberdade, o maior direito sempre defendido pela espécie, depois do
direito à vida. Embora situado entre os que definem consciência como
algo muito além do campo da física, portanto fora do alcance da
manipulação científica, arrepia-me a idéia preconizada, sinal de que
o saber nem sempre significa bom senso. E me vem à mente a anedota
do cientista que, tendo aberto portinhola para a passagem da gata
que vivia em seu laboratório, abriu outra menor para filhote nascido
algum tempo depois no mesmo local.
Se possível a criação de
máquinas pseudo-réplicas do ser humano, estaria ela de acordo com a
ética? E como recomendação, caso a insanidade fosse viável, faço
minhas as palavras de internauta enfurecido com a idéia: "que
robôs-políticos não sejam fabricados em terras tupiniquins".