"Apagão" na consciência dos
parlamentares
A internet veio para
libertar o indivíduo das amarras em que se prendia sua vontade de
comunicar-se com o mundo até onde desejasse. Só falta mesmo ampliar
possibilidades em atendimento à maioria, para que também tenha
acesso, independente de condição social, cumprindo assim a rede
mundial de computadores a função de formar a rede humana; que na
verdade sempre existiu como espécie, mas deixa de funcionar porque
bloqueios de naturezas diversas a fracionam em blocos isolados,
quando não hostis entre si. Mesmo ainda restrita a tão poucos, abre
oportunidades nunca dantes vistas, o que enseja desmedidos
entusiasmos em relação a realizações supostamente facilitadas pela
internet.
Em tentativas de contato
do público com os membros do Congresso Nacional, para marcar posição
com relação a assuntos em discussão naquelas casas legislativas, as
pessoas ligadas à internet têm sido estimuladas a enviar mensagens
eletrônicas a todo o grupo de congressistas. Ao contrário da carta
postada nos Correios, que o público acreditava não chegar aos
agentes políticos, o correio eletrônico (e-mail) é visto como passe
de mágica, não exigindo tanto esforço e gasto do remetente, para se
apresentar em curta fração de tempo à frente de seu destinatário. De
fato, a mensagem eletrônica exige menos, dispensando-se até
formalidades exigíveis no papel, e o tempo entre a remessa e o
recebimento é drasticamente reduzido. Contudo, acreditar que o
político vai ler a mensagem é como acreditar também que papai-noel
existe! Apagar é mais fácil que rasgar e jogar no cesto de lixo! É
provável que haja um assessor, muito bem pago, só para acessar a
caixa do correio eletrônico e apagar mensagens repetidas, facilmente
identificáveis pelo "assunto" em comum. O próprio sistema de
resposta às mensagens denuncia a reação do destinatário, se leu ou
apagou. Algumas mensagens são lidas por não mais do que cinco a seis
parlamentares. A grande maioria apaga sem abri-las. Mas, o político
é assim mesmo: meloso, grudento, assediante, quando em campanha
eleitoral e escorregadio como quiabo depois da posse.
Se não lêem nem o que têm
por obrigação, não há por que esperar comportamento diferente diante
das mensagens eletrônicas.
Está nos jornais e
revistas de grande circulação o que fizeram os parlamentares em
fevereiro último. Tinham em pauta a votação de projetos com vistas a
mudanças na lei penal, em resposta a cobrança da sociedade, desejosa
de punição mais severa para criminosos. Acabaram por aprovar projeto
em sentido contrário, de autoria do Executivo. Autor de crime
hediondo, como seqüestro, tráfico de drogas, homicídio com traços de
crueldade, não tinha direito à liberdade provisória, mas agora já
tem, porque os parlamentares votaram e aprovaram o projeto sem ler.
A que ponto chega a
irresponsabilidade desses políticos! E acabou a farsa de que os maus
são pequena minoria, porque se assim fosse nenhum projeto contrário
aos interesses da sociedade seria aprovado, em detrimento de outros
ansiosamente aguardados pelo povo, mas rejeitados ou enfurnados na
gaveta do desprezo. Tamo na mão
de calango!