Os aposentados
Pelo que se percebe nos meios
de comunicação, nunca se combateu tanto a discriminação e o
preconceito, mas o assunto é igual à "coisa que quanto mais mexe
mais fede". Assim é que, ao invés de eliminadas as conhecidas,
outras discriminações surgem e vão se juntar à mais antigas, para
formar barreiras diante do ser humano no exercício de seus direitos.
Mas é interessante notar que, à medida que cresce o poder aquisitivo
do indivíduo, as restrições à sua atuação na sociedade vão
diminuíndo até praticamente serem eliminadas. Logo, a maior
discriminação é contra a pobreza. Ser pobre é a coroação de todas
as condições discriminadas!
Altamente respeitada no
passado, mesmo porque poucos a alcançavam, insere-se hoje entre as
discriminadas a condição de aposentado. Em conversa com uma pessoa há
poucos dias, ouvi dela uma observação que passei fazer também ao ler
jornal. Dizia-me que ao ser focalizado como envolvido em fatos
noticiados, o trabalhador na condição de "beneficiário"
permanente da Previdência Social perde a identidade como cidadão e
passa a ser apenas "aposentado". Não importa a profissão que
tenha ou o que ainda faça, ao ser notícia, por qualquer motivo, ele é
apenas aposentado, a menos que tenha muito dinheiro. O amigo dizia que a
palavra se tornou um estigma na vida, mesmo se o cidadão continua a
trabalhar, o que não é raro, pois o que ele recebe do INSS, tendo em
vista o que já contribuiu para o sistema, é uma piada e não dá para
se sustentar com dignidade. Felizes são aqueles que ainda têm força
suficiente para não deixar o trabalho, podendo assim disfarçar a
condição que o torna cidadão descartável, peso morto e considerado
pelo Estado "altamente" oneroso. Como exemplo da triste
realidade vivida por aposentados, relatou-me a mesma pessoa que,
desejando efetuar uma compra a crédito, devido ao valor relativamente
alto, escolheu a mercadoria, definiu com o vendedor qual a forma de
pagamento, mas ao fazer a ficha do crediário foi barrada na compra.
Bastou dizer que era aposentado para o vendedor suspender a operação,
dizendo que ele não teria como quitar as prestações. Nem lhe
perguntou qual seria sua renda. E ele tinha condições de assumir o
compromisso. Este é o perfil econômico do aposentado diante do
mercado; perfil cruel criado pela injustiça do sistema previdenciário
que, ao longo do tempo, nivela por baixo todos os ex-contribuintes
compulsórios, não importando o quanto estes contribuíram na
condição de empregados. Antes quem sofria esse tipo de discriminação
eram idosos nos limites da expectativa de vida, por medo de eventual
morte antes de concluído o pagamento das prestações. Conclusão
triste: para o mercado o aposentado é um pré-morto!
O sentido original da palavra
aposentadoria seria "recolhimento aos aposentos", significando
que ao vencer seu tempo de contribuição ao sistema previdenciário, o
trabalhador deixaria de trabalhar para o seu sustento e isso lhe
permitiria o exercício do lazer e de atividades voluntárias em
benefício da comunidade, sem prejuízo à sua qualidade de vida. Mas,
tudo fica longe com a espoliação do trabalhador pela Previdência
Social, uma estrutura mal montada cuja voracidade na arrecadação junto
ao assalariado tem como contraponto, diante da sonegação empresarial e
de setores oficiais, uma condescendência que chega a ser criminosa. Nem
se fale da corrupção, fruto da parceria entre corruptos de dentro e de
fora do balcão do INSS. E ainda por contar com o estado de
mal-informado vivido pela maioria, o sistema produz milhares de
injustiças entre contribuintes que chegam à aposentadoria. Os poucos
que detectam os erros e ousam enfrentar a "patifaria oficial"
gastam anos para provar que têm razão, mas nem sempre têm seus
direitos reconhecidos de fato.