Arma mortífera
Dizem que Deus é
brasileiro, e deve ser mesmo porque para um país continuar de pé em
meio a tantas adversidades, só mesmo com proteção extra-divina, mas,
ao que parece, o diabo dá plantão nas ruas, avenidas, rodovias e
redobra sua ação, insuflando mais imprudência e irresponsabilidade,
especialmente durante os feriados prolongados. Como não consegue
derrubar o país com a politicalha, má-administração pública e
corrupção, impõe pesados tributos sob a forma de vidas, inocentes,
honestas, produtivas e com grande potencial de contribuição ao bem
coletivo.
Só mesmo sob influência
contrária à vida, jovem de vinte e dois anos, alcoolizado, assume a
condução de veículo e, em alta velocidade, passa trafegar na
contramão de movimentada avenida. A tragédia que vitimou empresário,
pai de família, na madrugada da primeira sexta-feira de fevereiro,
em movimentada avenida de Belo Horizonte, não é fato isolado e, se
ao seu causador, não pesar a conseqüência do ato, também não será o
primeiro a ser privilegiado com a impunidade.
Irresponsabilidade
semelhante é comum desde que o automóvel, extrapolando sua função de
transportar, converteu-se em símbolo de força e poder nas mãos de
cidadãos imaturos, motoristas herdeiros do despreparo com o qual se
fez a transição da sela, charrete, carroça e carro-de –bois para o
automóvel. Ironicamente, a tragédia aconteceu quando acabava de ser
proibida a venda de bebidas alcoólicas, nas rodovias federais, e
apresentada pelo governo proposta de endurecimento do Código
Brasileiro de Trânsito. A persistência da violência no trânsito tem
como causa, a falta de preparo (educação) da população - conforme
dito antes - a falta de autoridade na coibição dos abusos, a
aplicação da lei conforme qualificação do causador, e a impunidade.
A venda de bebida alcoólica já foi proibida às margens das estradas,
mas por óbvias razões não funcionou e, a julgar pelas exceções que
surgem desde a recente proibição, também não vai funcionar desta
vez. É oito ou oitenta; proíbe-se ou não se proíbe!
É claro que não se bebe
somente em estabelecimentos à beira da estrada, mas faltando bebidas
nesses locais, boa redução nas ocorrências de embriaguês ao volante
pode ser conseguida. E aqui, antes de fiscalização severa, requer-se
consciência cidadã e solidariedade humana de quem se estabelece à
margem de rodovia porque, indiretamente, uma simples dose de bebida
pode estar por trás de grandes tragédias. Não é só questão de burlar
a lei, mas de causar mortes, invalidez e muito sofrimento.
Quanto ao volume máximo de
bebida, desse ou daquilo tipo, que pode ser ingerida sem comprometer
as reações do indivíduo, considero temerária a fixação de limites.
Cada pessoa tem seu nível de tolerância à bebida alcoólica e há
quem, ficando dentro dos limites considerados seguros, pode ter seus
reflexos comprometidos. E essa tolerância pode variar também no
mesmo indivíduo, em momentos diversos, conforme a disposição de seu
organismo. A lei deve ser de tolerância zero à bebida alcoólica
diante do volante! Para provocar grande tragédia no trânsito nem é
preciso embriaguês visível, e não se sabe de antemão quais serão as
conseqüências da embriaguês, provocada seja pelo máximo ou mínimo de
álcool no sangue. E muito menos se pode fixar os danos mínimos de um
acidente.
Veículo nas mãos de alguém
sob efeito do álcool não é meio de transporte! É arma mortífera!