O asfalto
Morar, para o
cidadão consciente, deixou de ser tão somente ter uma casa, própria
ou alugada, onde se abrigar das intempéries, ter um endereço onde
construir seu mundo privado. O conceito de moradia se ampliou, não
importa se na capital ou na pequena cidade que, diga-se de passagem,
deixou de ser unicamente a sede do governo municipal, para classificar
qualquer aglomerado urbano dotado do mínimo necessário para que o
cidadão viva civilizadamente. Não mais se aceitam ruas sem
calçamento, ausência de saneamento básico, de energia elétrica, de
meios de comunicação e de transporte, na relação com outras
comunidades. O mundo rural fica, cada vez mais, restrito às
propriedades do gênero, pois uma comunidade de poucas casas ao longo de
uma rua já merece atenção quanto à dotação daqueles benefícios. O
calçamento, por exemplo, transcende exigências do trânsito de
veículos para atender também a necessidades de higiene doméstica,
minorando a ocorrência de poeira e de lama, fatores perturbadores da
vida de uma dona de casa.
E foi em torno do
calçamento que surgiu uma conversa ou troca de impressões, considerado
o péssimo estado das ruas de Cachoeira do Campo. Lá se foi o tempo,
cerca de trinta anos, que a poeira mais intensa e a lama foram minoradas
nas ruas centrais com o calçamento, parte em blocos de concreto e parte
em poliédrico. Mas, a verdade é que o calçamento em poliédrico, a
maior parte, foi mal executado e, ao longo de todo esse tempo, não
recebeu a devida manutenção. O pedestre arrisca a torcer o pé, a
mulher é impedida de usar calçado de salto e quem anda sobre rodas vê
seu veículo se desmanchar aos poucos. Infelizmente, calceteiro é
"espécie" que se extinguiu. Hoje há espalhador de pedra, que
a máquina vem e soca. O verdadeiro profissional do setor escolhia as
pedras, uma a uma, e as assentava com a face mais favorável virada para
cima. Pronto o serviço, sua qualidade pouco diferia do calçamento em
paralelepípedo. A solução preconizada por alguns e que viria
satisfazer a todos seria o asfalto. Não resta a menor dúvida de que,
do ponto de vista do trânsito, seja motorizado ou de pedestres, a
pavimentação asfáltica oferece a comodidade inexistente em outros
tipos de calçamento. Entretanto, graves inconvenientes desaconselham
seu emprego em vias urbanas. A experiência vem das grandes cidades, que
estenderam o tapete negro e viram agravados os problemas de meio
ambiente provocados por entupimentos de galerias pluviais, porque,
impermeabilizado o solo pelo asfalto, maiores alagamentos passam a
ocorrer no período das chuvas; assim como a água que, não se infiltra
no solo, os raios solares deixam de ser absorvidos e se refletem em
forma de calor, vindo a alterar a temperatura ambiente. A essas duas
inconveniências se junta a indisciplina do trânsito de veículos,
cujos condutores são tentados ao abuso da velocidade. Isso provocaria a
implantação generalizada dos famigerados quebra-molas. Não! A
solução não está no asfalto! O ideal seria a substituição do
poliédrico nas ruas mais centrais por paralelepípedos ou blocos de
concreto, enquanto nos demais logradouros o calçamento passaria por
recomposição criteriosa. Nada de pedra espalhada a esmo, mas assentada
com cuidado. Asfalto? Basta o já existente!
Mas, antes de tudo
isso, há que rever toda a galeria pluvial, que pouco a pouco se
transformou na segunda rede de esgotos. Todo o centro está sob uma só
fedentina: fezes acumuladas nas bocas-de-lobo! De um lado, a
irresponsabilidade de moradores que ligam o esgotamento sanitário de
suas casas, e do outro, a inexistência de fiscalização municipal
sobre o uso da infra-estrutura, seguida da falta de manutenção.
Entenda-se também que não se trata de pecado deste ou daquele
prefeito. É da estrutura administrativa municipal! E, vamos esquecer o
asfalto?