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PONTO DE VISTA DO
BATISTA
Asneiras emolduradas
Todo mundo tem direito a
cometer gafes, de vez em quando, e, que atire a primeira pedra quem
nunca as cometeu. Mas, tê-las como espécie de marga registrada em
encontros, reuniões importantes e nas vezes em que se dirige ao
público é coisa que não fica bem em estadista. Mas, isso não é
levado em conta por nossa mais alta autoridade, que fala nas
ocasiões mais solenes como se estivesse em conversa de botequim.
Chega a nos dar um frio na barriga quando ele começa falar!
Depois da fama e façanhas
no reino do futebol, o Brasil corre o risco de ser mais lembrado lá
fora graças a gafes ou mancadas do presidente da República,
incontinente no verbo e carente de cultural geral. A última
trapalhada aconteceu na Turquia, semana passada quando, querendo ser
engraçado em encontro com empresários turcos, o presidente soltou
esta:
"No Brasil, tem uma coisa
interessante que vocês precisam conhecer: apareceu alguém vendendo
algo na porta de um brasileiro, ele sabe que é um turco que está
vendendo". Essa
declaração configura confusão histórica feita pelo brasileiro comum,
que denomina "turcos" os sírios e libaneses; estes, sim, imigrantes
que ajudaram a interligação das cidades brasileiras por meio do
comércio de porta em porta. Por terem os primeiros, dessas nações,
emigrado para o Brasil, portando passaporte emitido pelo Império
Turco-otomano, que dominava o Líbano e a Síria - seus países de
origem - eles ficaram conhecidos como "turcos", na verdade uma
ofensa aos brios de sírios e libaneses.
Imagine-se o mal estar
causado entre os turcos, que não têm presença significativa no
Brasil e são vistos com reserva pelas comunidades síria e libanesa,
devido aos antecedentes históricos. Não teria acontecido, se da
parte do presidente houvesse comedimento e, das Relações Exteriores,
boa assessoria para preveni-lo contra incursões em terrenos
movediços das relações internacionais.
Poucos dias antes, a
verborragia presidencial escorregou feio diante da televisão ao
minimizar o perigo representado pela gripe suína. Em sua concepção,
diante dos números estatísticos relativos à doença, a gripe suína
não seria o que autoridades do setor de saúde haviam anunciado.
Ainda em sua concepção, teria havido exagero quanto aos riscos que a
gripe representa para a população humana. Ora, a gripe só não tem
feito mais estragos, causado mais mortes, porque a ciência tem
avançado muito na prevenção e controle de epidemias, contando ainda
com ajuda da tecnologia, que dispõe a informação instantânea,
permite monitoramento das ocorrências, além de outros recursos. Não
fossem esses avanços, o número de vítimas fatais já estaria na casa
dos milhares ou milhões, como a "asiática" em 1957 e a "espanhola"
em 1918. Caberia, sim, enaltecimento aos homens de ciência, cujos
estudos permitem mais segurança à saúde pública.
Mas, o presidente não está
sozinho a falar bobagens. A mídia também faz das suas. Está no ar
anúncio de produto, cuja marca comercial é "Totvs" (pronuncia-se "tótus"
e significa totalidade em latim), apresentado por conhecida
jornalista, atriz, apresentadora de televisão e outras
especialidades profissionais. À curiosidade sobre o "v" em lugar do
"u", o anúncio explica que, em latim, "totus" se escreve com "V"!
Oh! Santa ignorância! Ao contrário, em latim clássico, era assim que
se grafava o "U" e não havia a letra "V", pois não havia o som
correspondente, assim como também não havia a letra "J". Essas duas
letras só entraram no chamado "latim vulgar" (somente falado)
surgido por influência das línguas, com as iguais o latim interagiu,
no processo do domínio romano. É muito comum, nas antigas inscrições
latinas, a presença do "U" sob a forma do "V" .
Seria bom que
publicitários, antes de aplicar sua criatividade, procurassem
conhecer melhor o assunto ao qual se liga o produto em foco.
Asneiras? Já nos bastam as do dia a dia!
nbatista@uai.com.br
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