Engraçado como os
acontecimentos fluem, a despeito do que se pense, se faça ou deixe
de fazer; encadeados, ou não, os fatos se sucedem como as águas em
direção ao mar. Pode parecer exagero, mas cada pensamento expresso
em palavras e ações pode ter relação com acontecimentos, ainda que
de forma inconsciente, algumas espiras acima no âmbito coletivo.
Também, na vida pessoal, algum obstáculo parece impedir o roteiro
previamente traçado, mas eis que à frente, aquilo que parecia
obstáculo se revela salva-vidas ou correção de rumos para melhores
objetivos.
Quem assume compromisso
de, regularmente, colocar o que pensa no papel, ou, previamente, na
tela do computador, tem que estar preparado para produzir o texto do
dia, semana ou mês seguinte, conforme a periodicidade. Quando isso
não acontece, ou o tema não surge com mais antecedência, o detentor
da responsabilidade entra em situação quase aflitiva, por não ter o
fio da meada com que puxar qualquer assunto no preenchimento do
espaço, que lhe é destinado.
Estava nessa condição,
nenhum tema para esta edição, até a noite do último sábado, quando
bomba em forma de informação pipocou na tela da televisão.
Desembargador do Tribunal de Justiça do Distrito Federal havia
proibido grande jornal paulistano - circulação até em nível
internacional -, de divulgar matéria sobre a Operação Boi Barrica da
Polícia Federal, por meio da qual se investigam membros de poderosa
família maranhense, com destaque no Congresso Nacional, depois da
passagem (acidental) pela presidência da República. Por extensão,
todos os demais veículos de comunicação, em território nacional,
caíam na mesma proibição. Estava alí o gancho de que necessitava
para a produção do texto. O vácuo temporário na memória fora
providencial para o aproveitamento daquele importante fato em
momento certo.
Superada pela nação
tupiniquim a condição de republiqueta ao sabor da vontade pessoal, o
fato mais parecia coisa de vizinho ao norte, cujo líder tenta fechar
nas mãos o controle da imprensa, mas a realidade era nossa e
lembrava o tempo em que o direito de informar e ser informado estava
sob a mira do fuzil, com censura dentro das redações. Novamente se
valem da mordaça à imprensa, para que a nação não tome conhecimento
e não reclame do que acontece de podre nas esferas
político-governamentais.
Recorro ao texto da semana
anterior e vejo que ele é quase premonitório ao dizer que o
Brasil está mudo, calado, embatucado. Talvez, amordaçado! Mais
um sinal de que o tema desta semana estava no curso dos
acontecimentos.
Amordaçamento é o que
tentam os mesmos que vociferavam contra a censura durante o regime
militar; apoiados por imbecis e lambe-botas do mesmo grupo que,
diante dos protestos indignados, têm a coragem de argumentar que não
se trata de censura, mas decisão judicial. Segundo raciocínio desses
safardanas, censura, somente quando é de iniciativa do poder
executivo. E a questão não se prende a segredo de justiça, mas
atendimento a pedido da parte investigada, comprovadamente íntima do
desembargador que concedeu a liminar da proibição; negócio de
compadres, assim como nomeações de parentes e afins, atos secretos,
pagamentos por horas extras não trabalhadas, uso indevido de imóveis
funcionais e outras irregularidades dentro do Senado Federal.
A verdade é que de útil e
necessário, para a nação, pouco se tem produzido no Congresso, em
comparação com os sucessivos escândalos, cujos protagonistas e
parceiros corporativos tentam minimizar junto ao público, alegando
ser campanha difamatória da imprensa. E o Senado Federal virou ninho
de marimbondos (de fogo ou não), insetos improdutivos e tendentes à
confusão!