PONTO DE VISTA DO
BATISTA
De Ouro Preto a São
Paulo, uma aventura
Houve um tempo,
depois da introdução do automóvel, caminhão e jardineira ,
posteriormente substituída pelo ônibus, que sair de Ouro Preto ou a
ela chegar constituía uma verdadeira aventura, tão grandes eram a
dificuldades. Para as comunidades servidas pelos trilhos da Central do
Brasil, nem tanto, mas para as demais havia que planejar com cuidado uma
chegada até a antiga capital. Sou do tempo em que os poucos
privilegiados contavam com uma estradinha esburacada, poeirenta ou
barrenta, para se deslocar de Belo Horizonte, passando por Nova Lima, Rio
Acima, Itabirito, Amarantina e Cachoeira do Campo. Daqui a estrada
passava perto da Estação D. Bosco para, finalmente, chegar a Ouro
Preto. Em minha primeira viagem a Ouro Preto, fomos a pé até a
estação D. Bosco. É claro que eu ainda não tinha pernas suficientes
para andar todo o percurso. Fui nos braços do vovô e meu único
irmão, até então, carregado pela mamãe. No trem, um vendedor de
geléia foi uma atração à parte para o garoto que pela primeira vez
se deslocava para outra cidade, embora o motivo não fosse lá muito
feliz: visitar o pai, internado na Santa Casa, vítima de acidente de
trabalho. Como normalmente fazem os vovôs nessas ocasiões, o meu
contemplou-me com geléia até me saturar completamente. Era
verdadeiramente uma viagem o deslocamento de Cachoeira do Campo a Ouro
Preto!
Embora em outro
nível, porque tudo evoluiu e não se conceberiam, hoje, peripécias
daquele tipo no deslocamento entre os distritos e a sede municipal, uma
aventura pode ser o deslocamento até São Paulo, valendo-se de empresa
nativa. A viagem é própria para os que não se ligam ao relógio, não
têm compromisso com nada. Se chegar ao destino, tudo bem, se não
chegar, não faz mal, desde que ileso para tomar outro rumo. Numa dessas
viagens, há poucos dias, o bilhete de passagem marcava 18h25 como hora
da partida, e, no guichê, a funcionária previa o desembarque no
Terminal Rodoviário do Tietê, às 5h30 do dia seguinte. Na hora
marcada os passageiros constataram que a viagem já se iniciaria com
atraso. A espera pelo veículo se prolongou até às 19h10, quando ele
entrou no pátio da rodoviária. Mais dez minutos, e então a partida
aconteceu. Atraso de cinqüenta e cinco minutos é algo que não mais se
admite em transporte rodoviário, mas, seguimos em frente, caladinhos,
sem reclamações. Afinal, estamos no Brasil, vive-se o período de
férias quando tudo é festa, até o desrespeito do prestador de
serviço para com o usuário. Não se sabe o porquê, mas o fato é que
na frente da fábrica da CPFL, na Rancharia, o ônibus ali ficou por
longos minutos; mais atraso na viagem. Alguns passageiros fizeram blague:
seria parada para jantar nas dependências da fábrica. A chuva caía
sem parar. Finalmente, às 19h50, seguimos viagem. A partir de Ouro
Branco, começou a catação de passageiros em cada cidade da região,
mas isso o passageiro já conhece de antemão, o que elimina o direito a
qualquer chiadeira. Quanto à chuva dentro do veículo não estava
previsto. Mas, foi isso que aconteceu bem em cima de mim, o único
premiado com forte goteira. Se ainda tivesse o guarda-chuva em mãos...
mas ele estava na bolsa, no bagageiro! Como havia outras poltronas
vazias, troquei de lugar, mas a "alegria" durou só até São
João Del Rei, onde embarcou grande grupo de passageiros com passagens
nas mãos. Entre eles estava o usuário da poltrona que eu ocupava. Fui
obrigado a voltar para a chuva. A rodovia, que era excelente opção, é
agora uma sucessão de buracos. A cada cratera por onde o veículo
passava tinha-se a impressão que ele se partia em dois. No sul de
Minas, a chuva parou e fiquei livre da goteira. Finalmente, a chegada à
capital bandeirante.
Mas o inusitado
estava para nos atazanar até o fim. O motorista se enrolou e demorou a
encontrar o rumo da rodoviária paulistana. Depois de algumas voltas
pelas imediações, desembarcamos. O relógio marcava 8h20. Como não é
a primeira vez que transtornos ocorrem em viagens pela nativa, no futuro
farei de Belo Horizonte ponto de partida para o mesmo destino.
Oportunidades já foram dadas em demasia à empresa ouropretana!