PONTO DE VISTA DO BATISTA

Bagulho bobo e mortal

Uma semana antes do carnaval regular, por si só já descaracterizado desde que se meteu nele a mão do governo, via tentáculos municipais, a tragédia visitou pacata cidade do sul mineiro, matando quinze pessoas, ferindo e queimando dezenas de outras, que apenas se divertiam, extravasavam sua alegria, compensavam horas de trabalho duro e estudos cansativos no folguedo carnavalesco antecipado.

Quando o carnaval era evento feito pelo povo, com o povo e para o povo, sem subsídios dos cofres públicos e livre dos grandes aparatos de sonorização, mais segurança havia, limitando-se as anormalidades, nem tantas, aos grandes centros. No tempo do carnaval família, não no sentido moralista, mas de fato, com todos envolvidos na festa, dos oito aos oitenta, fantasiados e integrados a um bloco, organizado ou não, reunidos em pequenos grupos, ou mesmo de forma individual, o carnaval tinha cara local. E não havia êxodo em massa em busca da diversão, ao contrário de agora, que o reinado momesco tem, com raras exceções, a mesma cara em todo o país, estendeu-se de três para cinco e até mais dias, e se realiza sob a tutela do poder público municipal. Era o carnaval espontâneo, destituído de interesses competitivos premiados, além dos aplausos do público, antes que viesse também a competição em torno do maior público externo atraído, levando cidades a se vangloriar de ter entupido suas ruas de gente, abarrotado seus hotéis e congestionado os restaurantes. Passou-se a aferir o carnaval pelo volume da massa humana, comprimida e alienada sob o jugo dos altos decibéis!

Na Praça Tiradentes/Ouro Preto, em tarde de carnaval, alguns anos atrás, diante de grande multidão, "alguém" comentou, entusiasticamente: - muito bom o carnaval deste, ano, não é? Seu interlocutor retrucou: - até agora, não vi carnaval nenhum. Praça cheia, temos diversas vezes no ano e não é carnaval! Se marimbondos fossem, as palavras ouvidas como reação à sua observação tê-lo-iam levado ao hospital!

De olho nos impostos da indústria em que, pelas mãos do poder público, se transformou o carnaval, as prefeituras fecham olhos e ouvidos aos inconvenientes trazidos às comunidades, entre estes a zoeira eletrônica infernal, sucessora da música própria, antes localizada e limitada aos números suportáveis pela audição humana. O acinte já chegou ao ponto de se sugerir o exílio temporário de idosos e doentes de suas residências, para que mais à vontade ficassem os que se julgam com direito à interferência na vida alheia. Contudo, lesivos aos direitos do cidadão e, às vezes, insultuosos, esses inconvenientes não chegam a ser tragédia e causa de mortes como ocorreu em Bandeira do Sul-MG.

De acordo com informações divulgadas pela imprensa, a causa teria sido um tipo de serpentina metalizada (recoberta por alumínio) que, atirada, caiu sobre a rede elétrica, fazendo contato entre três cabos de média tensão, que se romperam e atingiram o caminhão do trio elétrico. Quem teve contato com o caminhão ou com os cabos sofreram violenta descarga de quase oito mil volts. Em poucos segundos, o que era alegria se converteu em desespero, dor e lágrimas. A tal serpentina, lançada sob pressão, por meio de tubo, é praticamente desconhecida, chegando a surpreender até mesmo técnicos da empresa concessionária de energia elétrica. Por ser metalizado, não escapa, mesmo ao leigo, a percepção do perigo que o produto representa nas proximidades da rede elétrica, principalmente durante eventos como o carnaval quando, da parte dos foliões, cuidados com a segurança a zero.

Mas, para que serpentina tão perigosa, se existe a de papel comum – que também pode ser perigosa junto à rede elétrica, se levemente úmida – largamente utilizada em todos os momentos do carnaval de outrora? Quem viu a embalagem da tal coisa diz haver advertência, que recomenda não usá-la próximo à rede elétrica. Mas, está escrito em inglês. Se instruções em português não são lidas, que se espera quando estão em idioma estranho? E por que importar tal bugiganga lá dos confins da China, se em nada nos faz falta? E sendo da China, há que desconfiar, pois não é o primeiro caso de artefato daquela procedência, que não prima pela segurança. Brinquedos chineses já foram refugados, em decorrência do perigo que ofereciam.

Mas, neste país grande e bobo, há que valorizar qualquer bagulho produzido lá fora, enquanto o que é nosso fica largado às traças!

nbatista@uai.com.br

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