PONTO DE VISTA DO BATISTA

Banda de música sob política de olho vesgo

"Quanto mais reza, mais assombração aparece" diz o povo para configurar situações em que comportamento adverso continua a se manifestar, apesar de esforços no sentido de corrigi-lo. Ou, fazendo uso de metáfora mais condizente com o tema a ser abordado, bate-se na mesma tecla, mas a resposta não é a nota esperada.

De modo geral, sempre mal dispostos num país voltado para rebolados lascivos e malabarismos no trato com a bola, cuidados em relação à cultura neste país chegam às raias da discriminação e preconceito, ao sair dos salões, galerias e rodinhas de grã-finos. Da mediocridade se elevam deuses, em detrimento de verdadeiros talentos destituídos do verniz acadêmico ou à parte dos mecanismos mediante os quais se fabricam os falsos ídolos. Prega-se no deserto, e, os poucos circunstantes aparentemente dispostos fazem ouvidos de mercador!

Como já foi dito anteriormente, e não poucas vezes, no topo do descaso nacional em relação à cultura está a banda de música, seja ela civil ou militar, pois nem esta última escapa do descaso e preconceito, como bem demonstra Hermes Andrade, ex-mestre de banda militar, em seu livro "O B da Banda". Por sua peculiar característica, formada na vivência do companheirismo sob confiança mútua e disciplina, banda de música é escola capacitada a tornar o jovem cidadão mais consciente, além de despertar-lhe e desenvolver o talento musical. Felizmente, jovens redescobrem, no aprendizado musical e conseqüente integração à banda de música, o caminho de sua realização pessoal como cidadão participante de algo construtivo dentro da comunidade. É ganho para si, para a família, para a banda e para a sociedade!

Infelizmente, outra visão parecem ter agentes políticos, autoridades e o grande empresariado, quando se trata de dar meios de tirar jovens das rotas de risco social. Tão somente o esporte se enquadra em seus planos. Recursos e aparato são disponibilizados para tal meio, sem que a mínima atenção seja dada à música, perfeitamente adequada para cumprir a mesma missão, talvez com melhores resultados porque vai além do físico. Até mesmo dos mais ligados à cultura vêm gestos de descaso e desrespeito para com as bandas de música.

No último fim de semana, em Cachoeira do Campo, o público aguardava a Corporação Musical Fanadeira (de Minas Novas-MG) como principal atração do Encontro Musical entre oito entidades do gênero. Manifestado o desejo daquela banda em participar do evento, o convite se oficializou e o próprio secretário municipal de Cultura daquela cidade comunicou o aceite do convite há mais de um mês, assumindo o fornecimento do transporte da banda. Seria, enfim, o estabelecimento da mão dupla no intercâmbio espontâneo, aberto por grupo de ouropretanos/cachoeirenses que, há alguns anos, visita aquela cidade por ocasião da Festa de Nossa Senhora do Rosário. Até na quinta-feira imediatamente anterior ao domingo do evento, contatos telefônicos davam conta de que o grupo minasnovense estaria em Cachoeira do Campo na manhã do sábado. Na manhã da sexta-feira, entretanto, em outro contato, informou-se que a banda não mais viria por ter a prefeitura retirado o apoio prometido: não mais forneceria o transporte. Tudo pronto lá e cá, mas poucas horas antes da viagem, o tapete foi puxado. Despesas, muito trabalho, expectativas, para, ao fim, promotores do evento passarem como autores de propaganda enganosa diante do público.

Com os pés, a administração municipal de Minas Novas destruiu o incipiente intercâmbio feito com carinho por mãos do povo minasnovense e de ouropretanos/cachoeirenses.

nbatista@uai.com.br

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