Bandas de Música
PASSADO, PRESENTE E FUTURO

Como expressão máxima da cultura mineira, herança viva das confrarias religiosas, aqui florescentes no século XVIII, às quais cabia a incumbência de prover os suntuosos templos do que havia de melhor no reino da arte, incluindo-se a música para os atos litúrgicos, as bandas de música sobrevivem às tormentas, que sempre fustigaram as obras do espírito neste país. Mesmo com a perda de inúmeras delas, que não suportaram os embates, pode-se dizer que o trabalho dos músicos fundadores  das primeiras bandas não se perdeu. Sucedendo às orquestras sacras, gérmen da cultural musical brasileira, as bandas tomaram a si o encargo de preservar entre o povo o eco das primeiras notas, cabendo a Minas a maior responsabilidade, pois, junto ao destacado acervo plástico, aqui viveram e trabalharam os melhores entre os músicos nacionais daquela época. Enquanto não se fabricou o primeiro fonógrafo, a música instrumental só podia ser ouvida, havendo  o músico e o instrumento disponíveis, razão pela qual havia maior interesse por parte da população em aprender a execução de algum instrumento. Estando acessíveis à maioria dos interessados, as bandas popularizaram-se, convertendo-se na maior escola de música, donde saíram grandes expoentes da arte, entre os quais Antônio Carlos Gomes, exemplo dos mais eloqüentes do trabalho de promoção social desenvolvido por elas.
A inauguração da era eletrônica, no entanto, arrefeceu  a busca do aprendizado musical, acomodando-se todos à passividade de meros ouvintes, dispensados do conhecimento reservado aos instrumentistas e compositores. Agora, entre o longo caminho do aprendizado e a audição imediata, o comodismo aconselhava a opção pela segunda; escolha também facilitada pelo descuramento do ensino da música nas escolas.
As bandas, porém, continuaram; enfraquecidas e desprezadas, é verdade, mas, continuaram firmes em sua missão, talvez confiantes numa revitalização. Convivendo com interesses eleitoreiros dos que as redescobrem a cada temporada de votos e os interesses econômicos dos que ganham com o massacre da cultura popular, elas sofrem a omissão de uns e a invasão de sua área de atuação por parte de outros. As leis existentes, concernentes à defesa do patrimônio artístico, cuidam do produto cultural estático, herdado do passado, mas a cultura dinâmica, viva, rica também em registros históricos está desamparada. Peças de arte, monumentos, cidades e acidentes geográficos ganham  a proteção das leis, e, muita confusão se arma quando algum desses itens é ameaçado. As entidades de cultura popular, como as bandas de música, não têm garantia alguma, afora a abnegação dos seus responsáveis diretos. Basta o simples capricho de um político mal satisfeito, para uma entidade do gênero não ter seus direitos reconhecidos. Em momento de grande preocupação com o destino dos nossos jovens, melhores resultados seriam obtidos em sua educação, se lhes fosse oferecida a oportunidade do estudo da música e a execução de um instrumento durante os dois primeiros graus escolares. Alguns poderão dizer que aos jovens não interessa o aprendizado da música, estando sua atenção voltada tão somente para a imitação e repetição daquilo que ouvem de fora, muito mais identificado com o espírito irrequieto da juventude. Julgamento apressado e injusto por parte de uma geração que, deslumbrada diante das maravilhas eletrônicas, esqueceu-se do dever de repassar aos filhos a herança cultural herdada dos avós! E agora cobra de quem não é responsável pelo elo partido. Mesmo tendo havido esse rompimento com o passado, muitos jovens estão ansiosos pelo estudo da música e ingressariam numa banda, se a encontrassem estruturada para recebê-los. No entanto, necessitando do elemento humano como sempre estão, muitas vezes as bandas não têm quem ensine. Hoje, o despertar da consciência para o aproveitamento das potencialidades do indivíduo em prol de um desenvolvimento harmônico da comunidade, reclama dessa mesma comunidade uma ação conjugada de todos seus setores, visando a recuperação de nossa identidade cultural. Os jovens clamam por participação nesse processo, e, as bandas de música podem ser um dos caminhos, onde eles descobrirão a si mesmos como agentes de integração dos valores humanos existentes na comunidade. Representando muito além daquilo que o público conhece de suas atividades nas ruas e praças, as bandas de música aguardam que se reconheça seu grande trabalho de promoção social.


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