PONTO DE VISTA DO BATISTA
Bandas de música em
mobilização
Ouro Preto, como capital
de Minas que foi, é pólo da região com o maior número de bandas de
música, por isso mesmo, entre elas as mais antigas do estado,
destacando-se no próprio município as duas com o maior tempo de
atividades ininterruptas, ambas aproximando-se dos cento e cinqüenta
anos. Lamentavelmente, o número só não é maior porque o desmazelo
cultural, tanto da parte oficial quanto da sociedade, sempre foi
muito grande no Brasil. A cidade já viu florescer várias bandas de
música, que desapareceram com a chegada da República e transferência
da capital. Uma delas se mudou junto com o governo e, hoje, até
renega sua origem. Nos distritos, outro tanto deixou de existir
pelos mesmos motivos.
Pela quarta vez, nos
últimos quatro anos, as seis que restaram se reúnem no Festival
Ouropretano de Bandas de Música. Neste primeiro sábado de setembro,
a noite na Praça Tiradentes estará por conta delas por iniciativa do
Museu da Inconfidência, da Universidade Federal de Ouro
Preto/Pró-Reitoria de Extensão, e da Associação Comercial,
Industrial e Agropecuária de Ouro Preto. Não é concurso e se
preferiu denominar o evento "festival" porque é restrito às sediadas
no município e algumas especificamente convidadas a cada ano, quando
verba mais "generosa" é destinada pelo Ministério da Cultura, o que
não se confirmou neste ano.
A idéia do evento se
desenvolveu graças à maior aproximação entre as entidades congêneres
no município, o que estimulou também a criação da Associação das
Bandas de Música do Município de Ouro Preto-ABAMMOP (em fase de
regularização), cuja atuação poderá resgatar a banda como verdadeira
escola, da música à cidadania, enquanto, por meio do companheirismo,
confiança e disciplina, descobre talentos e promove o indivíduo
socialmente. Entretanto, cabe a cada músico, a cada corporação e
cada comunidade onde se insere, o dever de cobrar mais respeito para
com as bandas, exigir dos poderes constituídos e da sociedade os
direitos que lhes cabem como células de cultura e centros de
promoção humana. Inserido entre fatores desrespeitosos chama-nos a
atenção o polêmico "bandão", criação infeliz cuja repetição se
alastra com a realização de encontros de bandas, quase sempre sob
iniciativa de prefeituras municipais.
Em recente encontro,
realizado em Manhumirim, ao invés do desfile individual, cada qual a
mostrar suas habilidades e características específicas, o "bandão"
mostrou tudo o que uma banda de música não é, não faz. E jornal
regional, sediado em Manhuaçu, completou a insensibilidade musical
mediante pequena matéria ilustrada com cinco fotos, nenhuma a
focalizar uma banda de música de fato. Vinte e quatro corporações
musicais participantes do evento, segundo o próprio jornal, e
nenhuma delas teve foto publicada! Além da insensibilidade, a
coordenadora, que já organiza encontro a se realizar em Fervedouro,
na mesma região, lança ao lixo o princípio democrático, segundo o
qual a vontade da maioria tem prevalência sobre a minoria. Em
manifestação dirigida a regentes e instrumentistas diz ela:
"Quero manifestar a vocês o pedido de compreensão em relação ao
Bandão. Sei que a maioria não o aprovam (sic), devido cada banda ter
o seu próprio estilo, andamento e arranjos, mas o Bandão encanta e
comove muito. As pessoas dizem nunca ter visto coisa tão linda. Eu
também me emociono sem preocupar com a afinação que pode apresentar
as suas diferenças".
Se a maioria não aprova o
tal "bandão", essa vontade deveria ser respeitada, mas a democracia
é violentada pelas mesmas lideranças populares, que a cobram dos
políticos. E se "as pessoas dizem nunca ter visto coisa tão linda" é
porque já se acostumaram com a mediocridade reinante!