Sei do risco de
melindrar pessoas com o tema, tabu para uns, recorrente para outros,
mas a todos ligado, indistintamente, desde o momento em que se abrem
os olhos para este mundo. Se ainda o "desconfiômetro" não fez
acender a luzinha, digo que o assunto é a morte, a mais franca das
realidades na vida, encontro indefinido no tempo, espaço e forma,
porém certo e irrevogável quanto à sua ocorrência e com a qual todo
ser vivo terá um dia.
Na cadeia da
vida, na natureza, em decorrência da racionalidade, pressupõe-se a
espécie humana como a mais ou, entre alguns, a única consciente do
fenômeno morte. Essa condição, aliada ao fator desconhecido no além,
leva a comunidade humana a se posicionar de formas diversas, seja
quanto ao que se espera no além-túmulo ou quanto ao trato a se dar
aos despojos cujo destino final, também irreversível, é a
desintegração completa e retorno aos elementos químicos de que se
formam. Embora grande maioria aceite a continuidade da vida
além-túmulo, de alguma forma, como parte de sua respectiva crença
religiosa, espécie de culto ao corpo – como se este fosse mais
importante - persiste e alimenta um comércio insensível, que explora
o semelhante em momentos dos mais dolorosos, quando indivíduos do
círculo próximo ao pranteado estão, psicologicamente, mais frágeis.
O "culto" persiste por anos e se constata pelas visitas aos
cemitérios, desde as diárias até as anuais como o aniversário de
falecimento e o Dia de Finados.
Para se
preservar a memória do finado, bastaria manter vivos seus ideais,
dar continuidade ao bom trabalho por ele desenvolvido e perdoar-lhe
as faltas, os erros, ainda que tenham deixado sequelas. Entretanto,
todos são compelidos a gastos supérfluos, como se o finado deles
dependesse ou ainda entre vivos estivesse, pesando essa "obrigação"
mais sobre ombros de menores posses.
Mediante
comerciais bem produzidos e argumentação apelativa, são lançados,
nesse mercado lúgubre, cemitérios com nomes sugestivos e preços nada
condizentes com a realidade orçamentária de cada um. Um dos
argumentos se prende à preocupação, dizem, que cada um deveria ter
com a própria morte e consequências imediatas, não deixando, para os
que ficam, o peso da responsabilidade com relação ao funeral, ao
túmulo, etc. Com o devido respeito aos que pensam de forma diversa,
digo que a responsabilidade de dar o destino final ao defunto cabe
aos vivos, exclusivamente, aos que ficam, sejam familiares ou não.
Dirão, talvez, ser posição egoística, mas aponto o bom senso como
base para ela. O indivíduo, embora certo de que a morte é
inexorável, tem o direito e deve viver sem se preocupar
excessivamente com ela, cuidando, sim, da saúde e dos modos de vida,
com relação a si próprio e ao seu semelhante. A morte não deve ser
olvidada, mas sua lembrança no quotidiano do indivíduo, por
paradoxal que pareça, deve ser com foco exclusivo sobre a vida, bem
vivida, que inclui o lado material, porém sem os exageros e o apego
demasiado às aparências que o mundo oferece. Viver bem, entende-se
por consciência em perfeita sintonia com o melhor para si e para o
semelhante, em quaisquer circunstâncias: ventura ou desdita, fama ou
anonimato, riqueza ou pobreza, saúde ou doença, alegria ou tristeza.
Cumprida, dessa
forma, a passagem por este mundo, o indivíduo terá assegurado o
melhor cuidado com seus despojos que, certamente, lhe proporcionarão
os do seu círculo social. Aparatos formais no funeral, tipo e
aparência do cemitério, nada significam e nada acrescentam ao
passado do finado. Alimentam, sim, a vaidade dos vivos, ou tentam
substituir pedras atiradas em vida, além de rechear, acima do
necessário, contas bancárias dos que exploram essa necessidade.
Registre-se, na oportunidade, que site do setor diz que "cemitério,
hoje, é um bom negócio"!
A exploração
dessa necessidade e do sentimento alheio chega ao cúmulo da
crueldade sob a forma de planos funerários, cujo comércio foi
denunciado, recentemente, por jornal de grande circulação. Um desses
planos já levanta suspeita pelo fato de atuar em regiões das mais
pobres do território mineiro, entre pessoas simples do meio rural,
analfabetos e semialfabetizados, mediante simples carnê, sem
contrato com as especificações dos deveres e dos direitos de parte a
parte. Abutres se alimentam de corpos de animais mortos no campo,
mas, idealizadores e exploradores de tal plano funerário devoram
seus "clientes" ainda em vida, sugando-lhes sangue e suor.
É o cúmulo da
crueldade dentro da comunidade, que se diz cristã!