Em relação a trabalho
estava eu mais ou menos tranquilo, sem qualquer urgência a me
apoquentar, quando o cliente chegou e, após se apresentar e expor o
que queria, passou a acompanhar o desenrolar do atendimento. Era
adulto ainda jovem, trabalhador comum e bastante sociável, segundo
primeiras impressões captadas ante sua presença. Percebi que,
sentado, lançava os olhos à sua volta.
Além de produzir textos,
entre os quais esta coluna semanal, tenho como obrigação diária a
manutenção do OURO PRETO WORLD, informativo cultural eletrônico de
minha criação, mantido no ar desde 2001, e exerço atividades como
profissional credenciado da área imobiliária. Em relação ao
informativo eletrônico, acrescento o trabalho de resposta a muitos
e-mails que me chegam com solicitações de licença para uso de fotos,
para reprodução de textos em publicações, consultas para trabalhos
de pesquisa e informações relativas à jabuticaba e à jabuticabeira.
Quanto aos últimos itens,
o assédio de internautas se prende ao excesso cometido quando
inseri, no "site", página dedicada à jabuticaba. Como bom
cachoeirense, admirador e apreciador das "doces pretinhas" e sua
mãe, "caí na besteira" de expor tudo o que sei e penso em relação à
mais tradicional frutífera dos quintais em Cachoeira do Campo. O
resultado é que passei, involuntariamente, a impressão de ser
profissional da área agrícola e especialista em
jabuticaba/jabuticabeira, coisa que passa muito longe do que
realmente sou. Mas, o prazer de responder e, sobretudo, saber que o
"site" conquistou espaço entre internautas e tem cumprido sua
função, compensa todos os esforços. E agradeço a Deus por, já à
porta dos setenta anos e me haver iniciado nas letras por meio da
lousa de ardósia, ter a oportunidade
usufruir dessa maravilha, que é o computador conectado à web, e
assim poder aprender mais e disseminar o que penso.
Em razão de toda essa "fuçação",
meu ambiente de trabalho, exígua saleta de pouco mais que dez
metros, é uma mixórdia entre modesta biblioteca, amontoado de papéis
avulsos e outras trenheiras, que chegam e vão ficando, porque o dono
do pedaço entende que aquilo algum dia poderá servir para alguma
coisa; sem falar no computador, seus periféricos e enorme quantidade
de fios a assustar os menos ligados à informática.
Por isso, ao notar que o
cliente repassava os olhos em tudo, imaginei estar horrorizado e a
se perguntar como alguém pode trabalhar no meio desta balbúrdia.
Fiquei surpreso quando ele, a olhar para a estante à sua frente, fez
a observação:
- Vejo que o senhor tem
bons livros, alguns dos quais já lidos por mim.
- Então, gosta de livros?
- Gosto muito; e um dos
que já li é "Eram os Deuses Astronautas?" (de Erich von Däniken),
que está na sua estante – e acrescentou:
- Tenho o vício da
leitura.
- Se é que possa assim ser
chamado, bendito vício o que você tem.
- Penso da mesma forma,
pois meus conhecimentos vão muito além do que aprendi na escola,
devido ao hábito da leitura. Devo isso à minha avó.
- Como assim?
- Ela não sabia ler, mas
era muito curiosa. Tudo que via escrito, pedia-me que lesse para
ela. Com isso, tomei gosto pela leitura.
- Também bendita a avó,
que você teve!
Curiosamente, estávamos às
vésperas do Dia Nacional do Livro (29 de outubro), quando se travou
esse diálogo. E o mais reconfortante é a constatação de possível
importância de uma pessoa, em nossas vidas, não importando seu grau
de instrução. Aquela avó era analfabeta, mas tinha sede de
conhecimento e, intuitivamente, levou seu neto a buscar luzes na
leitura. Bendita vovó!