PONTO DE VISTA DO BATISTA

O besouro presidencial

"Em boca fechada não entra mosquito" é o dito apropriado para a situação de quem, inadvertidamente, diz algo em local e momento impróprios, incorrendo em conseqüências desagradáveis, bem representadas pelo mosquito que, fora de rota, adentra, também inadvertidamente, a cavidade bucal, do mesmo modo, aberta como túnel por onde enxame dos mesmos insetos pode passar. É o preço pago por palradores descuidados, ávidos de atenção sobre si pelo que julgam conhecer a mais que os menos importantes ao redor, segundo seu próprio entendimento. Nesse aspecto, o atual presidente da República tem registrada extensa coleção de manifestações verbais, cujo único proveito é o enriquecimento do anedotário político-nacional.

Mas, na última impropriedade dita, o presidente transcendeu limites folclóricos, confessando ter ele próprio feito calar voz que denunciava corrupção. Pela relevância inerente ao cargo de presidente, maneira como escancarou a boca e conseqüências não medidas, teme-se que não seja um mosquitinho qualquer, podendo ser até um baita besouro que seu hospedeiro não sabe agora se cospe ou engole, porque num ou noutro caso, o desconforto não será menor. Preso à mania verborrágica de quando ainda sindicalista, o presidente não se cuida quanto ao como, quando, onde e o que diz, esquecendo-se de que palavras mudam de peso de acordo com a posição de quem e em que circunstâncias as profere. Disse ele que ordenou ao inominado "companheiro" fechar a boca quanto ao caso de corrupção durante o governo anterior, que lhe trazia, em confidência, de importante tentáculo estatal. Se verdadeiramente confidenciado o fato pelo "companheiro", cabia ao presidente ordenar imediata apuração do caso. E se concluiu por si próprio que mais prejudicial seria a devassa, abrir o verbo agora e nas circunstâncias em que fez leva ao mesmo perigo, agravado pela confissão de erro que não se espera de um governante. Mas, agora o "companheiro" - presumido pela mídia, diga-se de passagem – nega ter tido a conversa com o presidente e que nem é tão companheiro assim, visto ter assento em outro partido. Resumindo: se foi mesmo ele o confidente, cumpre fielmente a ordem presidencial recebida naquele momento. E agora, José? O besouro está lá. Será engolido ou cuspido?

Oriundo das camadas mais pobres, como ele mesmo gosta de repisar, deveria observar e por em prática o que diz a sabedoria popular quanto ao dar com a língua nos dentes, porque a palavra pode ser como bala de revólver. Depois de disparada, dependendo das circunstâncias, causa estragos incalculáveis! "Dominar a arte da discrição é melhor que usar a eloqüência", e também mais vantajoso "pensar antes de falar, mas não falar tudo o que pensa" aconselham os mais experientes antes de concluírem que o "o coração do tolo está na boca".

Nos tempos de oposição, muita celeuma o presidente falastrão levantou em torno de escorregadelas verbais de seu antecessor no cargo, como se livre estivesse de defeitos próprios da natureza humana. E talvez, por isso, não tenha se resguardado de lançar pedras ao telhado do adversário, esquecendo-se de que pretendia, um dia, também viver sob o mesmo telhado de vidro.

nbatista@uai.com.br

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