PONTO DE VISTA DO BATISTA

Besteirol na mídia

Em tempo de presidente incontinente no uso do verbo e, por isso, gerador de polêmicas e situações embaraçosas para seus auxiliares diretos, notadamente na área das relações internacionais, estão a virar moda bobices ou asneiras ditas por profissionais da comunicação.

Desejável seria que o supremo mandatário tivesse o refino verbal, de acordo com as exigências do cargo; não digo o palavreado pomposo, rebuscado e incompreensível para a maior parte do público, porém mais educado, coerente e, sobretudo ao alcance da compreensão popular. Falar para o povo não significa esculachar! Mas, as circunstâncias, nem sempre favorecem ao desejável e o conceito de democracia, ainda que não plena, exige altas reservas de tolerância e boa vontade, sabendo-se que o escolhido e ungido como presidente não teve oportunidade para se educar, ou – quem sabe? – desprezou-a em momento mais oportuno. Não há como escapar!

Quanto aos arautos novidadeiros, ditos preparados e titulados por escolas também ditas de renome, não lhes ficam bem incoerências, equívocos grosseiros, que revelam desinformação, ao contrário daquilo que é de obrigação do profissional da área. Desculpável ao presidente, em razão do já exposto, mesmo porque se ele ao cargo chegou não foi por si só, imperdoável se configura desenvoltura com que repórteres, noticiaristas e apresentadores dizem bobagens a todo o momento.  As falas do presidente são criticadas, como devem e merecem, assim como as de qualquer cidadão, em contraposição à verdade, à ética, ao bom senso e normas de boa educação. Entretanto, contra besteiras ditas na imprensa escrita, rádio e televisão, poucas vozes se levantam. Tudo fica como se nada tivesse acontecido e, pior, o público assimila o erro como coisa certa e verdadeira.

O cúmulo da incoerência se dizia, há poucos dias, por repórter, em tom emocionado, em relação a uma das muitas tragédias humanas a compor o espetáculo televisivo diário. O profissional dizia que a vítima estava desesperada, mas ainda cheia de muita esperança. Mas, como, cara pálida?  Como é possível não ter nenhuma esperança e tê-la, ao mesmo tempo? Dicionários registram que “desesperado” significa: 1. Que perdeu a esperança; desesperançado.   2. Que está entregue ao desespero.  3. Próprio de quem perdeu a esperança. E é fato, pois indivíduo em estado de desespero não crê, praticamente, em nada, e não aceita ponderações de quem quer que seja. Para ele, naquele momento, o mundo acabou. É preciso que passe a forte emoção e se recupere o poder de raciocínio, para que novamente se vislumbre o sentido da vida e, aí, sim, se recuperem também as esperanças. Em relação a pessoas falecidas e seus últimos feitos, virou prática padrão dizer que fulano realizou isso ou aquilo “antes de morrer”, como se ao defunto fosse possível realizar o mesmo que se espera dos vivos. Como diria o dramaturgo Nelson Rodrigues o “antes de morrer” é o óbvio ululante, dispensável, intrometido, que nunca deveria ser dito nesses casos. E ainda há repórter que faz a clássica e cretina pergunta do “Pedro Bó”: ele escreveu a carta antes de morrer? Tanta coisa interessante para se perguntar na entrevista, mas o imbecil tem que sair com uma dessas! E não aparece ninguém para lhe dar bom cascudo, que possa despertar-lhe os dois neurônios adormecidos! É muita asneira liberada por quantos deveriam ser, pelo menos, uma fresta por onde o cidadão vislumbrasse o conhecimento, despertando-se assim para buscá-lo onde se encontrasse. Até que alguns desses profissionais se acham os tais ao concluir seus trabalhos jornalísticos com “esclarecimentos” dignos de piadas. Ao concluir reportagem, brilhante, por sinal, sobre festa de Santo Antônio no interior mineiro, o repórter informou que todos os festejos tinham início e se celebravam em torno da Trezena de Santo Antônio. A reportagem fora perfeita com informações bem definidas e imagens surpreendentes sobre os eventos da festa do padroeiro local. Mas, ele quis dar seu toque de erudição e “esclareceu” que trezena era uma novena de treze dias! Ó misericórdia, quanta ignorância!

E agora vem uma bem atual. Ao se referir à festa católica de Corpus Christi, revista envereda pela inversão de valores. Tece elogios à beleza dos tapetes de serragem e à maneira como é confeccionado, pela participação comunitária, e, acrescenta que a festa de Corpus Christi tem também celebração eucarística e procissão. E se alguém dissesse que a revista é composta de papel de primeira qualidade, páginas coloridas, chamativas, e também alguns textos?

nbatista@uai.com.br

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