Em várias ocasiões, reportei-me à versão tupiniquim da "lei do menor
esforço", ou seja, a solução simplista de problemas complexos por
meios marotos, no clássico jeitinho de embrulhar o povo, mediante
eleição de culpados e seu sacrifício, dispensando-se estudos mais
profundos da questão inicialmente em foco.
Os bichanos, que
encontram no Parque Municipal, em Belo Horizonte, abrigo seguro
contra o abandono a que são deixados por seus donos, correm o risco
de perder a liberdade, tão valorizada pela espécie. Querem
aprisionar os bichinhos em gatil, mas o que mais revolta, além da
supressão da liberdade àqueles animais, é o cinismo da argumentação
apresentada para a injusta solução.
Depois da queda
da árvore (janeiro/2011), cuja consequência trágica e imediata foi a
morte de mulher, que passava à sua sombra, o parque foi fechado
durante algum tempo para que técnicos inspecionassem e emitissem
laudo sobre a saúde das árvores e o grau de segurança dos visitantes
àquele local. Os profissionais concluíram que o parque estava
infestado de cupins, o que comprometia a vida de muitos espécimes
ali plantados, estendendo-se a fragilidade à segurança dos
frequentadores.
Como pede a
lógica e o bom senso na administração pública – se houvesse –
esperava-se o combate direto aos térmitas, aplicando-lhes tratamento
adequado, visando extinção das colônias localizadas nas raízes das
árvores. Mas sempre há alguém com soluções fora do padrão,
especialmente se encaixam dentro do famoso esquema de matar dois
coelhos com uma só paulada. O segundo coelho não tem nada a ver com
a história, mas sua eliminação serve a interesses também dissociados
da questão central. Assim como pelo visto na casca do ovo,
"descobriram" que os pássaros, predadores naturais de insetos,
estavam sendo dizimados pelos gatos moradores do parque. Então,
pergunta-se:
Foi feito
levantamento das aves silvestres, aninhadas no parque ou suas
frequentadoras? Levantamento, classificação e monitoramento prévios
da população emplumada seriam indispensáveis, para se detectar o
número de aves insetívoras (comedoras de insetos), pois nem todas o
são. Parte delas é frugívora (comedora de fruta), assim como também
há as ambivalentes, ou seja, comem tanto insetos quanto frutas. As
insetívoras, em sua maioria, caçam os insetos em voo, o que
restringe a caça aos cupins reprodutores em seu estágio alado
(aleluia). Ficam fora do alcance dos pássaros as colônias de cupins,
localizadas nas raízes, conforme já dito. Se verdadeira a tese dos
que se voltam contra os gatos, foram classificadas as aves comidas
por eles? Qual o percentual das vítimas de caça entre as aves
silvestres no parque? Quais os percentuais da mesma caça entre as
aves insetívoras e frugívoras? Só as insetívoras eram caçadas? Sem
esses dados não há como concluir que são os gatos os culpados pela
proliferação dos cupins no Parque Municipal.
Quanto aos
gatos, predadores naturais dos pássaros, nem sempre caçam por prazer
como os humanos, pois, bem alimentados, são indolentes, preferindo
boa soneca, de preferência em local sossegado. E, pelo que se sabe,
os do Parque Municipal são bem assistidos por ONG especializada no
trato de animais e por voluntários. Recebem ração de qualidade, têm
assistência veterinária e não proliferam desordenadamente graças a
programa de castração mantido por seus cuidadores. Embora subam em
árvores, sejam ágeis na captura de presas, felinos domésticos caçam
mais no chão e não têm os pássaros tão ao alcance, pois estes, além
de preferirem os galhos das árvores, têm as asas que os livram do
pulo do gato. Portanto, pontos desfavoráveis aos bichanos, como
causa da proliferação dos térmitas, são mínimos.
Pesa mais, nesta
questão contra os gatos, grande ojeriza humana, sentimento que se
radicaliza, quando encontrados pontos de apoio à tese antifelina. Na
mesma proporção do amor e carinho dispensados por amigos abnegados,
há ódio, desprezo e preconceito contra os gatos por parte de
pessoas, que não economizam tempo e recursos para prejudicá-los.
Dizem detratores de gatos que estes são traiçoeiros, sujos, nojentos
(porque comem ratos), ladrões e transmissores de doenças.
Traiçoeiros não são porque não atacam ninguém; só respondem às
agressões, voluntárias ou não, de que são vítimas. Embora não usem
água para higiene, quando não acostumados, conservam-se bastante
limpos, não andam na lama ou na sujeira. Quem come carne de galinha
e de porco não pode falar dos que comem ratos, especialmente
camundongos, preferidos pelos gatos. Ladrões? Quem atira a primeira
pedra entre humanos, notadamente tupiniquins? Como qualquer ser
vivo, o gato é passível de transmitir doenças, mas em escala bem
menor do que o ser humano.
Na verdade, a
ojeriza humana aos bichanos está no inconsciente. Totalmente livre,
o gato não aceita imposições e só se deixa sujeitar pela mansidão e
carinho, contrariando o homem que a tudo quer dominar. O ser humano
pensa ser livre, mas está preso a convenções, regras, preconceitos
e, não raro, quando lhe convém, à subserviência para satisfazer
interesses pessoais. Gato não trabalha e vive bem; o que o homem
gostaria também de fazer e não pode! Por isso os gatos do Parque
Municipal são culpados!