PONTO DE VISTA DO BATISTA
Bigode sem fé
Este mundo, ou melhor, o mundo
criado pelas idiossincrasias e convenções humanas, reserva-nos
surpresas e esquisitices a todo o momento. Quando pensamos já ter visto
tudo, eis que acontece o insólito, para nos advertir de que há sempre
algo, na cabeça de alguém, destinado a barrar-nos os passos na
direção de nossas aspirações. E, quase sempre, o obstáculo imposto
fundamenta-se na supervalorização do aparente, na discriminação, no
preconceito e até na arbitrariedade.
Imagine uma família em
preparativos finais para conduzir uma jovem filha ao altar e, ali, ela e
o seu amado proferirem solenemente o compromisso de vida conjugal, sob a
bênção do ministro religioso, não importa qual credo. Para chegar
até àquele momento tão significativo, familiares de ambos os lados do
novo casal programaram-se, mesmo com renúncia a algo pessoal, para que
não se frustre o desejo dos noivos de ter presentes todos os familiares
e amigos à cerimônia. Todos estão ansiosos, mas o pai da noiva talvez
esteja mais, orgulhoso por estar contribuindo com a formação de uma
família, uma nova célula da sociedade. Não cabe em si de
contentamento e olha insistentemente o relógio. Cabe-lhe a
responsabilidade e a honra de conduzir a noiva ao altar, mas, na hora
"H", alguém chega e lhe diz: - O senhor não pode entrar
no templo. E ele, meio atordoado com a insólita preventiva: -
Não posso por que? A explicação é mais insólita: - Porque o
senhor usa bigode. A princípio, quem ouve pensa tratar-se de uma
brincadeira fora de hora, mas logo se percebe não haver nenhuma
brincadeira. Estabelece-se maior qüiproquó! Entre risos de convidados
ante o considerado absurdo e a indignação dos familiares do envolvido
no incidente, a cerimônia se atrasa, sendo realizada três horas depois
da hora marcada. O pai da noiva é mesmo impedido de entrar por causa do
bigode e familiares não entram em solidariedade ao discriminado.
Você que lê deve estar a
pensar que criei esta historieta com algum propósito a ser aclarado
mais à frente. Nada disso. O fato aconteceu mesmo aqui bem perto, em
Raposos, no último sábado de setembro, segundo relato de jornal da
capital. Ao contrário da denominação adotada - "Deus é
Amor" – os ministros daquela igreja local não têm a caridade
como sustentáculo da fé, mas a imposição de obrigação extensiva a
convidados. Fico a imaginar se, no lugar do pai, tivesse sido convidado
um ex-presidente, notório por seu bigode tipo escovão. Qual seria a
reação? Poriam o homem para fora? Desperdiçariam a oportunidade de
aparecer na mídia ao lado de um ex-presidente da República? Gostaria
de saber onde alguns grupos se apóiam para criar imposições como
aquelas dos talebãs e esta, ao contrário, que não permite o uso do
bigode. Com o devido respeito, Jesus, o Mestre, era cabeludo, barbudo e
bigodudo, seguindo a cultura de seus contemporâneos judeus. Em nenhum
momento, Ele se preocupou com essas bobices, tendo combatido a – até
justificável na época - discriminação contra os infectados pela,
então, mais terrível doença: a lepra. Na pregação e nos contatos
que Ele fazia com o povo, todos mereciam a mesma consideração. E, por
isso, não entendo o porquê da proibição do bigode por parte dos que
se dizem pregadores da doutrina do Mestre.
Ainda bem que não uso bigode,
mas amanhã poderão criar empecilhos para quem é careca; para quem tem
estatura abaixo de um metro e setenta, por exemplo; para quem usa
óculos; ou para quem pesa mais de setenta quilos. Ainda bem que o pai
discriminado não se dobrou ao capricho dos representantes daquela
corrente religiosa, e, registrou a ocorrência na polícia. Afinal o que
tem a ver o _ _ com as calças?