PONTO DE VISTA DO BATISTA

E a "bobofest" se implantou entre nós!

Mais uma vez tomamos o rumo do sertão mineiro, cruzamos as veredas de Guimarães Rosa, deixamos para trás o berço de JK, atravessamos a ponte sobre o Rio Fanado, subimos a ladeira em meio ao casario colonial para, logo em seguida, chegar ao coração de Minas Novas, onde já se ouviam os tambores em convocação dos devotos de Nossa Senhora do Rosário. Iniciava-se a tradicional e autêntica manifestação de fé religiosa que, em sintonia com a cultura local e regional, se realiza a cada 24 de junho, sob a coordenação da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Minas Novas. A festa de Nossa Senhora do Rosário é em outubro, mas em Minas Novas mantém-se a tradição do 24 de junho, dia de São João, desde o surgimento da imagem no Rio Fanado. E é naquele rio que a população, precedida da Irmandade e grupos folclóricos de origem negra, no dia 23, busca a imagem para a realização das homenagens durante três dias, depois de cumprida a novena.

Procedentes da região, que teve Chico Rei como precursor da especial devoção negra com seu canto e danças devotados à Virgem do Rosário, lá estávamos para testemunhar o orgulho com que uma comunidade cuida de seu patrimônio cultural em perfeita sintonia com a fé religiosa, ao contrário de nós outros que, em submissão a estranhos ditames, desdenhamos as mesmas origens. O próprio setor religioso, outrora indutor e catalisador da cultura, não mais se comporta como tal, pois, em nome de um purismo duvidoso com tendência política, despreza o braço profano estendido em apoio e participação. A esse gesto, que excclui, batem palmas promotores da anticultura com seus ídolos de laboratório e o lixo a eles inerente, pronto para ser empurrado goela abaixo, na falta do que somos e fazemos.

A indústria da macaqueação se implantou entre nós com a produção de grandes e barulhentos eventos, verdadeiras esponjas a secar a economia local e embotar a criatividade, outrora profícua e atrativa, chegando a despertar nos ausentes o sentimento de mais contato com o berço natal e participação em suas realizações. Até os títulos dos eventos macaqueiam realizações terceiras, de outros quadrantes. A onda do sufixo "fest", copiado de evento sulino, invade a área do entretenimento e passa a ser usado na composição do nome de eventos locais. Quase sempre é a mesmice como nomes diferentes, sempre terminados em "fest". Todos poderiam ser reunidos numa só categoria: a "bobofest"! Quanta falta de imaginação! E para onde foi a criatividade?

Participando dos ofícios religiosos e acompanhando as atividades profanas correspondentes àqueles festejos à direita do Rio Fanado, percebe-se o quanto toda a Região dos Inconfidentes já perdeu de sua identidade cultural, grande parte dela formada em torno da fé católica. E junto com a identidade cultural foram-se também oportunidades de interação econômica em benefício das camadas populares, que participavam do processo com o produto do seu trabalho na terra, na oficina ou por meio das artes e prendas domésticas. Nada resta da pujança que esta região já ostentou em eventos com a cara do povo que os realizava! Este, agora submisso a vontades estranhas, abandona-se à passividade de assistir à invasão massacrante, que nem é de cultura alheia, mas da mediocridade alienante.

E a vergonha se estampa na face dos poucos com memória viva do passado!

Conheça a festa do Rosário em Minas Novas

nbatista@uai.com.br

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