Bode expiatório
Coisa que mexe comigo, me irrita, provoca
minha indignação, é a solução simplista, baseada no sacrifício de
todos ou da maioria, para coibir práticas danosas por parte de
reduzida minoria. Cobrar da sociedade ou de todo um grupo pelo
comportamento anti-social ou criminoso de meia dúzia considero
extrema injustiça, mas o que mais se vê ultimamente é o justo a
pagar pelo pecador. Com palavras de abertura de texto, aqui
publicado há cinco anos, volto a bater na mesma tecla uma vez que a
falta de vontade política alimenta a incompetência, e esta continua
a ditar restrições com base na lei do menor esforço.
Assim como "de grão em grão a galinha enche o
papo", de poda em poda em seus direitos, o cidadão se diminui, a
sociedade se enfraquece e o estado se transforma em monstro
insaciável. Cresce novamente a pressão pela proibição do uso da
garupa nas motocicletas, como coibição aos assaltos praticados por
duplas montadas em tais veículos.
Antes que desconhecidos me acusem de defender
interesses próprios, esclareço que abomino motocicletas, nunca
possuí uma e nem pretendo, e se me pedem opinião não aconselho seu
uso e aquisição. Considero a motocicleta veículo extremamente
perigoso, mesmo conduzido com cuidado, desconfortável e indutor da
imprudência devido a seu desempenho no trânsito. Condeno seu mau
uso, assim como o de qualquer outro veículo e considero a impunidade
um dos principais fatores a sustentar a irresponsabilidade por trás
dos altos índices de acidentes no trânsito.
Mas, não é por isso que se deva concordar com
os que, a título de combater o crime, praticado por parcela mínima
da população montada sobre duas rodas, quer proibir ao piloto o
transporte de alguém na garupa. Quem tem o veículo, seja para o
trabalho, passeio ou esporte, tem o direito de usá-lo em sua
plenitude, não merecendo a consideração que lhes dão como bode
expiatório dos crimes de uns poucos foras da lei. A grande maioria
faz uso da motocicleta para o bem, embora parcela razoável paute
pela imprudência, e não é justo que pague pelas ações dos bandidos e
incompetência dos governos no combate à criminalidade. E o aumento
diferenciado de impostos relativos à propriedade de motocicletas só
confirma a discriminação, por si só condenável, aqui agravada por
prática do Estado.
O Estado que faça melhor proveito da
arrecadação e se coloque ao lado da sociedade produtiva e
trabalhadora; desdobre-se no combate à marginalidade, fiscalize,
prenda, julgue, condene e puna os verdadeiros culpados. Mas deixe os
inocentes em paz!
O cidadão honrado trocou de posição com o
bandido desde que este, mesmo atrás das grades exerce seu poder de
mando, exige e consegue do Estado, o que muito trabalhador não tem.
E se algo tem, o cidadão de bem se fecha atrás de grades e muros
que, nos presídios, não impedem a ação criminosa de detentos junto a
comparsas nas ruas. Nas ruas, o cidadão é tomado pelo medo e
condicionado à falta de segurança a limitar sua liberdade de agir
naturalmente. E quando alguma iniciativa se toma, não é contra o
crime e sim contra os direitos do cidadão, como é o caso da garupa
das motocicletas.
Se persistirem nesse caminho, vai chegar o
momento em que o cidadão acabará sendo proibido de sair às ruas,
para evitar assaltos. Assim como a abertura, o fechamento deste é
feito conforme o texto anterior. A proibição da garupa será mais uma
agressão aos direitos do cidadão e uma mentira em nome do combate à
violência!