A vitória do boi de piranha
Assim como os tsunamis,
que varreram as costas de países asiáticos no Natal do ano passado,
a derrota do partido dominante na recente eleição do presidente da
Câmara Federal continua a dar o que falar na mídia e provocar
estragos nos planos políticos de muita gente. Também como na Ásia, a
surpresa desnorteou os que se sentiam seguros de si; o choque fez
submergir projetos de um lado e emergir possibilidades para outros.
De repente, os que pensavam conservar e ampliar as delícias nas
praias do poder são alijados de suas posições, o que ensejaria
oportunidade de reflexão aos dotados de humildade e capacidade de se
recompor, se não fosse a arrogância marca registrada do partido, que
somente recentemente se desfez da imagem de virador de mesa, o que
então lhe facilitou a ascensão ao poder.
No momento em que se
estabeleceu a bipolarização dentro do partido, com a candidatura
oficial do paulista e outra assumida pelo deputado mineiro,
verificou-se até que ponto são capazes de se manterem unidos os
petistas, orgulhosos dessa qualidade nos tempos de oposição. Mas, é
fácil ser unidos na oposição, quando a busca do poder é o objetivo
comum. No poder, afloram tendências e interesses diversos que, no
caso do PT, revelam-se mais conflitantes em decorrência da rigidez
imposta como meio de manter a coesão partidária. Mas, a mão de ferro
dos caciques já nem tanto inibe, pois maior é a vontade de cada um
na busca por sua parcela de poder. Depois do episódio dos quatro
rebelados e expulsos do partido, no caso da reforma da Previdência,
a candidatura avulsa do deputado mineiro à presidência da Câmara
veio comprovar o acirramento de diferenças internas, que a cúpula
tentou dissimular ao mesmo tempo em que apertava o cerco contra o
candidato. Apesar da grande pressão, com aval do Planalto, a
candidatura por fora da raia cresceu e chegou a convencer que seria
vitoriosa, sobretudo porque até então capitalizava a simpatia dos
parlamentares de pouca expressão e visibilidade, rotulada de "baixo
clero". Cobrava mais atenção dos ministros aos deputados e prometia
austeridade!
Tudo corria a favor da
candidatura avulsa, mas ela começou a balançar quando o candidato
paulista acenou aos seus pares com a paridade dos vencimentos na
Câmara Federal com os dos membros do STF. Entre a austeridade de um
lado, e o acréscimo de nove mil reais no contracheque prometido por
outro, não é muito difícil escolher se a consciência não é bem
afinada com o altruísmo. Mas, até então ninguém imaginava uma
terceira candidatura, entre as demais concorrentes, que pudesse
romper a disputa petista, muito menos que fosse a do folclórico
deputado pernambucano, célebre por considerar pouco o que ganha um
deputado federal, além de destacado como ícone do "baixo clero". As
duas características foram suficientes para virar o jogo, contando
com a ajuda maldosa da "cacicagem" petista que viu no pernambucano o
boi de piranha de que necessitava, para derrotar o mineiro no
primeiro turno e eleger o paulista no segundo.
Mais uma vez era a
arrogância petista que, frustrados os esforços pela desistência da
candidatura empecilho, via vitória fácil de seu candidato em disputa
com o da terceira opção, considerado pouco expressivo e lustrado
para o cargo. O tiro saiu pela culatra, pois, venceu o boi de
piranha! Perdeu o PT que foi alijado da mesa diretora e levou um
safanão o Executivo, que não deve se imiscuir nos assuntos que só
dizem respeito ao Legislativo. Ganhou o corporativismo parlamentar –
da Câmara Federal às câmaras municipais - que pensa com o bolso. Há
quem diga que também ganhou a democracia. Discordo. Não vejo
democracia onde só têm vez os "donos" dos partidos na condução da
política.