Parecia coisa de botequim,
desses de quinta categoria, tipo "copo sujo". A gritaria e palavras
pouco recomendáveis denunciavam pancadaria iminente, só faltando,
como som de fundo, sirene da polícia a chegar, antes de cadeiras e
garrafas levantarem voo em direção a cabeças opostas. Quem quisesse
saber mais detalhes poderia consultar, no dia seguinte, página
policial do jornal mais mundano, onde, certamente, estaria o relato
dos fatos.
Mas, como dito no início
do texto, parecia. Parecia, mas não era! O recinto era a sala de
sessões do Senado Federal e, os furiosos contendores, ditos
senadores, eleitos representantes ou procuradores do povo para, em
nome deste, legislar e defender interesses coletivos. Regiamente
pagos para cuidar dos altos interesses da nação, buscar e adotar,
sob o amparo da lei, melhores propostas de vida para os brasileiros,
tais senhores não têm feito outra coisa, senão, zumbir como
marimbondos em torno do marimbondo rei, acusado de boas trapalhadas
não condizentes com seu posto e contrárias aos preceitos da
instituição.
Confiante no poder que
eles, senadores, detêm nas mãos, o povo lhes paga mais do que o
necessário, mas o retorno tem sido aquém do esperado e, nos últimos
meses, somente se produzem discussões distantes dos nobres
propósitos da Casa, porém bem à porta da delegacia de Polícia.
Reflexos da crise, surgida
acolá no universo dos interesses mesquinhos, minam a economia
nacional; a sociedade carece de leis e de segurança que contenha a
criminalidade em níveis ditos previsíveis no complexo das relações
humanas; grande massa humana se concentra à base da pirâmide do
conhecimento, aguardando oportunidade para ascender alguns degraus,
mas a política educacional não passa de discussões estéreis e
perdularismo em atividades meio; condições humano-sociais continuam
precárias para extensa faixa da população, agravadas por doenças,
não tratadas em razão da ineficiência dos serviços públicos na área.
Em resumo, a nação claudica porque representantes do povo se ocupam
com a política partidária em si, tratam de seus interesses pessoais,
tão pessoais que chegam a extrapolar limites legais. Muito antes do
prazo legal, ainda dentro da primeira metade do mandato em curso, já
tratavam de candidaturas e eleições no futuro. Esquecem-se de que
estão a dar asas aos inimigos da democracia, que defendem pura e
simplesmente a extinção dos parlamentos, apontando a seu favor as
iniquidades constatadas.
A água suja da bacia deve
ser lançada fora, mas sem deixar que vá, junto, também o bebê.
Devem, sim, ser alijados dos parlamentos os políticos já
comprometidos com a improbidade, a antiética e a corrupção. E
extintos devem ser todos os partidos políticos, que tendem a dividir
a sociedade, estimulam a luta ideológica, alimentam o
corporativismo, favorecem as oligarquias, escondem a corrupção e
promovem a impunidade. Na busca do bem estar comum, a sociedade tem
que estar organizada para escolher, diretamente, quem a represente
nos parlamentos, onde as discussões devem ser em torno de ideias,
projetos e seu grau de interesse público, descartando-se de vez as
discussões entre grupos ideológicos, os acordos e conchavos, trocas
de favores e outros vícios próprios do sistema político-partidário
vigente.
Embora pesquisas de
opinião pública mostrem os políticos profissionais com a corda no
pescoço, no mundo inteiro, bastando um chute no tamborete para que
fiquem suspensos, o processo de mudança para a democracia direta,
isto é, sem interveniência de partido, não será fácil.
Tomar deles o osso, que
roem há tempos, não se conseguirá sem algumas dentadas em troca!