Brasileiros desperdiçados
lá fora
Brasileiros têm figurado
sob o foco da mídia internacional, em circunstâncias desfavoráveis,
que incluem violação de leis de imigração, cometimento de algum tipo
de crime e tragédias humanas das quais são vítimas. Entre as
tragédias, o mais recente caso é o do mineiro Jean Charles, da
cidade de Gonzaga, vítima da polícia britânica quando tomava assento
no metrô londrino para se dirigir ao trabalho como eletricista que
era. Surpresa maior não podia haver para nós, brasileiros,
acostumados a ouvir louvores sobre a competência britânica no que
toca a polícia, sobretudo a investigativa, da qual constitui símbolo
lendário a figura do Sherlock Holmes, criação literária de A. Conan
Doyle.
Nada mais chocante saber
que o rapaz foi brutalmente morto com oito tiros dados por agentes
da Scotland Yard, a polícia mais famosa do mundo, antes que qualquer
coisa lhe fosse perguntada, para se saber quem era, o que fazia ou
iria fazer naquele momento. Pior ainda, quando se sabe que a vítima
não vestia indumentária incompatível com clima, naquelas paragens e
nesta época do ano, e nem tampouco portava pacote suspeito de ser
bomba terrorista, das várias explodidas em dois atentados em dias
anteriores. Pelo que sabe até o momento, graças à própria imprensa
britânica, a polícia montou uma farsa tão logo constatado o grave
erro cometido, e com ela tentou justificar-se. Nem mesmo admite o
estado de tensão e pânico coletivos, em decorrência dos atos
terroristas já executados e das constantes ameaças.
Vítima de erro da polícia
inglesa, Jean Charles é também vítima indireta do terrorismo
internacional, mesmo mal constatado como causa do desaparecimento de
José de Vasconcellos Júnior, funcionário de construtora brasileira,
seqüestrado no Iraque. Um e outro, trabalhadores legais em terras
estrangeiras, vítimas inocentes da violência internacional!
No outro extremo da
situação perante leis internacionais e específicas de outros países,
brasileiros são condenados à morte ou estão na iminência de serem,
por homicídio, nos Estados Unidos, e por tráfico de drogas, na
Indonésia. Lamenta-se que ainda exista pena morte em alguns pontos
do globo, mas se violaram leis que pedem a pena capital como punição
aos autores, que se cumpra a lei.
Entre os dois extremos há
ainda os brasileiros imigrantes ilegais, com maior incidência nos
Estados Unidos por força da dinâmica da economia daquele país, em
contraposição à debilidade da nossa. A superioridade é tão grande
que as desvantagens em decorrência de diferenças culturais e do modo
de ser norte-americano se anulam para a aqueles inclinados à
aventura, a ponto de se desconsiderarem riscos de morte na perigosa
travessia da fronteira. E a entrada furtiva, por aventureiros que
não teriam coragem de pular o muro do vizinho, é feita como se
também não fosse invasão, mais criminosa que a entrada sem
autorização em domicílio alheio. Apanhados pela polícia, clamam por
justiça com alegação de que não mataram e não furtaram,
esquecendo-se de que invasão também é crime e que a coibição não é
mero capricho norte-americano, mas a defesa do que lhes pertence.
São vítimas de situação injusta no Brasil e de humilhações nos
Estados Unidos, para onde vão em busca do eldorado, mas não deixam
de ser criminosos, aos quais tem sido dado tratamento próximo ao de
heróis, quando de sua repatriação sob os holofotes da mídia.
Tais brasileiros são
energia, talento, disposição e ousadia, desperdiçados no
estrangeiro, que poderiam ser empregados na transformação deste
Brasil, cruel com os trabalhadores e benevolente com a pilantragem.