"Brazucas", vítimas
da safadeza tupiniquim
Cada um sabe onde e como lhe
dói o calo, razão pela qual não se deve condenar quem escolhe viver
em outro país, opção que se torna corriqueira nestes tempos em que o
sucesso se torna obrigação e oportunidades correspondentes são parcas
em nosso país. Sentir escoar-se seu próprio tempo, sob o peso de
frustrações geradas a partir de rumos indefinidos do país quanto ao
provimento do necessário para que cada cidadão tenha seu trabalho, é
angustiante e insuportável a espíritos inquietos, desejosos de
conquistar o mundo. Outra saída não há se não pelo aeroporto, indo
sujeitar-se a novas condições, outras leis e costumes, tentar falar e
entender em outra língua que não aquela ouvida desde o berço. Não é
tarefa fácil e, por isso, reservada aos de indômita coragem. E é essa
coragem que, muitas vezes, a extrapolar o bom senso, sugere a
transposição de limites legais ao se fazer o mesmo com relação a
fronteiras; uma invasão de domicílio ou propriedade que, em nível
doméstico, o mesmo indivíduo não ousaria cometer. A entrada em outro
país, seja a passeio, a trabalho ou para residência definitiva deve
ser feita sob obediência a normas legais internacionais, que em nível
doméstico corresponde ao convite, aceitação ou autorização para
transposição dos limites de nossa propriedade, da soleira de nossa
porta, para visita, participação em festa ou, quiçá, para a
coabitação.
A transição do calendário
anual foi marcada pela discussão e gestões em torno da situação de
centenas de brasileiros presos nos Estados Unidos, diga-se de passagem,
sob condições humilhantes, segundo relatos de prisioneiros. Aos
desavisados e influenciados pela propaganda antiamericana, pode parecer
que os "brazucas" (brasileiros ilegais nos Estados Unidos)
sejam vítimas da prepotência ianque, quando, na verdade, são
vítimas, sim, do nosso próprio subdesenvolvimento e, especialmente, de
organizações clandestinas e inescrupulosas, cujo objetivo é ganhar
dinheiro às custas da ilusão do "sonho americano", que eles
próprios ajudam a disseminar, para atrair clientes. São esses
indivíduos e organizações, os verdadeiros algozes dos nossos
compatriotas. Embalados pelo lucro fácil e estimulados pela ausência
de ações coibitivas e punição exemplar, esses traficantes de
ilusões têm produzido mais desgraças do que realizado o desejo de
entrada nos Estados Unidos, ainda que sob riscos de posterior
enquadramento nas malhas da implacável lei americana. Ao mesmo tempo,
abriu-se polêmica em torno da decisão americana de fotografar e
coletar impressões digitais de todos, com exceção de oriundos da
Europa, ao ingressar naquele país. Nada a reclamar, pois cada país
estabelece suas normas de controle de ingresso em seu território.
Dentro desse mesmo princípio e mais o da reciprocidade, o Brasil
também fez o mesmo com relação à entrada dos norte-americanos;
procedimento legítimo e destituído de qualquer outro sentido que não
a igualdade de direitos, tão defendida pela democracia norte-americana.
Não procedeu da mesma maneira com outros países, porque outros não
fizeram como os primeiros.
Entretanto, entre tupiniquins
há lambe-botas, que se puseram contra a decisão brasileira, em nome da
força maior representada pelos Estados Unidos e de alguns turistas que,
de lá, deixariam de vir. Tanto o antiamericanismo radical e gratuito
quanto o seu oposto, a subserviência, não condizem com os princípios
de uma grande nação que o Brasil pretende ser. Os que pensam ser
melhor o Brasil abaixar a cabeça diante da arrogância, de quem quer
que seja, devem estar a acatar a sugestão embutida no gesto grosseiro
daquele piloto que, felizmente, foi devidamente repelido pelas
autoridades em nome do respeito a cento e setenta milhões de
brasileiros.