|
PONTO DE VISTA DO
BATISTA
Brincadeira tem hora!
Antes pouco do que
nada! É o consolo de quem esperava pena maior para os quatro "galalaus"
do tipo pó-de-arroz que, há quase cinco anos atearam fogo ao Galdino, um
nosso irmão índio. Para um país que não tem tradição de Justiça
igual para todos, o resultado do julgamento foi meia vitória. Todos eles,
incluindo-se o menor à época do crime, mereciam, no mínimo, a pena
máxima. Ah!, isso mereciam! Não se concebe, de maneira nenhuma, o
comportamento assumido daqueles jovens em relação a uma pessoa em
perfeitas condições de defesa, ou seja, em estado de vigília, de pé e
a encarar os agressores; muito menos, quando a vítima está a dormir,
não importa sua condição social e o local onde dorme. Fica a lição
para possíveis imitadores e, especialmente para famílias, que não se
preocupam muito com a educação de seus pimpolhos; todos muito
engraçadinhos para os pais, que não aplicam punição à altura de
travessuras mais graves, ou seja, aquelas que agridem ou ofendem, de
alguma forma, os direitos de terceiros. Tais pais pensam que, mandando
seus filhos às melhores escolas, por força do dinheiro que têm, estão
fazendo tudo pelo futuro deles. Tudo começa com brincadeiras mais
agressivas dentro de casa, quando a criança ainda aprende a conhecer o
mundo e os pais deixam o momento escapar sem uma reprimenda ou punição
adequada. É a mania de arremessar coisas nas pessoas, cuspir nelas,
maltratar animais domésticos, danificar objetos em casa em represália
por algo que as contrariou. A excessiva liberdade dada aos filhos, sob a
falsa tese de que crescerão frustrados se contrariados em suas vontades,
é a responsável pelo que se vê mais tarde, quando um ato criminoso é
confundido com brincadeira. Escola nenhuma consegue dar ao homem aquilo
que este não recebeu em casa. Não é o fato de o indivíduo pertencer a
classe menos favorecida ou estar desempregado que o torna violento, como
afirmam teóricos num insulto à dignidade de todos os pobres e
desempregados deste país que, apesar de tudo, sofrem as agruras da vida
sem apelar para o crime. Ainda bem que no caso do Galdino, os criminosos
foram identificados imediatamente, pois o crime teria ficado no mistério
e debitado a favelados ou moradores de rua. Ironicamente, quem
possibilitou a identificação para que a polícia cumprisse seu papel foi
um jovem da mesma faixa etária dos criminosos, que trabalha para custear
seus estudos.
Mesmo as tais chamadas
"pegadinhas" da televisão, apontadas pelos réus como fonte de
inspiração para a barbárie cometida, podem ocasionar efeitos danosos,
pois não há como prever a reação das pessoas alvos de tais
brincadeiras. Susto violento pode levar uma pessoa à morte. Soltos nas
ruas e sem quem lhes impeça desatinos próprios da juventude,
especialmente quando mal formados, adolescentes abusam da própria
liberdade e dos direitos de terceiros com a execução de atos impensados,
cujas conseqüências a imaginação não consegue antecipar. Depositar,
por exemplo, uma urna funerária à porta de senhora quase nonagenária,
para os autores não passa de brincadeira, que nós outros na neutralidade
consideramos de muito mau gosto, sem ter idéia do choque que pode causar
na escuridão da noite. Entretanto, o alvo da dita
"brincadeira", sob o impacto do inusitado, transforma-se em
vítima do terror sugerido pelo objeto macabro. A partir do susto, uma
sucessão de eventos pode se desencadear, dependendo da saúde, do estado
psicológico e do temperamento da pessoa atingida.
É no que dá copiar
manifestações culturais que não nos dizem respeito. Bruxas os autores
teriam visto se a pretendida "brincadeira" tivesse desembocado
em algo mais grave para suas vítimas!
nbatista@uai.com.br
VOLTAR
PRÓXIMO |