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OPINIÃO
A broa em Ouro Preto
Na edição anterior,
a broa foi aqui citada de passagem, recordando episódio singular em
que, lançada nos meios de comunicação, se não por quem dela se
lembrou primeiro, o foi, contudo, pelos que se levantaram a questionar o
que, no seu entendimento, era a manifestação do mau gosto de um
ministro da Cultura. O fato se deu em fins de 1985 ou princípios de
1986, quando aquela pasta estava nas mãos do professor Aluísio
Pimenta, e, este querendo chamar a atenção para a abrangência da
cultura, apontou a broa como exemplo entre usos e costumes, que entram
na formação de nossa identidade cultural. Talvez a broa tivesse
passado despercebida, se alguns auto-nomeados do "do mais fino
paladar" não se insurgissem contra a introdução na mesa daquela
iguaria, dita caipira. O protesto de uns poucos foi o bastante para
aguçar a curiosidade dos demais comensais que, daí em diante, dela se
serviram e degustaram, achando-a boa e condizente com o próprio
paladar. A broa, até então acanhada ao lado do bule esmaltado de
café, apareceu em colunas sociais, foi tema de crônicas e artigos,
matéria jornalística dos grandes noticiosos da televisão. Se tentaram
cobri-la de pejo diante do pão, mais nobre, por outro lado não
faltaram os que saíram em sua defesa, e do caboclo que a prepara com o
milho por ele mesmo plantado, colhido e moído.
Entretanto no
interessado artigo sob o título "Broa & Cachaça",
publicado no jornal Estado de Minas, segunda seção, página 2, de 8 de
fevereiro de 1986, Saul Martins em sua ação de degustar a nossa broa
acabou sendo enganado pelo paladar: conferiu-lhe origem e introdução
em nossa culinária em desacordo com a história. Segundo ele, a broa
teria sido introduzida no Brasil por imigrantes norte-americanos,
sulistas derrotados pelos nortistas anti-escravagistas na Guerra de
Secessão, finda em 1865. Ainda de acordo com aquele articulista, a
palavra broa seria adaptação brasileira de "bread" (pão em
inglês). Acontece que há registros a contestar tal afirmação. E um
deles data de 1724, na forma de livro aberto por Domingos de Souza
Braga com o título "Tombo da Villa para se lançarem os
aforamentos", porém não usado conforme o termo de abertura. Em
janeiro e fevereiro de 1733, foi ele usado para registro da aquisição
de víveres, entre eles a broa aparecendo com 13 lançamentos, superada
apenas por leite que aparece 15 vezes. Ao lado de mercadorias, cujos
nomes estão ilegíveis, aparecem menos vezes outros itens da
alimentação tais como farinha, pão, carne de porco, melado, banana,
açúcar, vinagre e aguardente. Curiosamente, o feijão só aprece uma
vez, assim como bacalhau, toucinho e paio. Sendo uma amostra muito
pequena, durante dois meses apenas, porque em março já não se
registrou nada, permanecendo o restante do livro em branco, por ela não
se pode dizer que a broa fosse um item básico da alimentação.
Contudo, pode-se dizer que era muito apreciada por alguém em Vila Rica,
há 262 anos passados.
Mas, o mais
importante mesmo, no momento, é que pelo registro nesse livro prova-se
que a broa não foi introduzida por imigrantes norte-americanos ao
término da Guerra de Secessão, como escreveu Saul Martins, pois 132
antes daquele fato histórico já era conhecida e consumida em Vila
Rica. E muito menos é derivado de "bread". A broa deve ter
sido introduzida pelos próprios portugueses, e, a palavra é derivada
diretamente do gótico BRAUTH, como ensina o LELLO. Aliás, pelo som, é
muito mais lógica a derivação direta de "brauth" do que
através "bread".
O livro, talvez o
mais antigo registro de itens da alimentação mineira, fazia
parte do acervo de documentos da Prefeitura Municipal de Ouro Preto até
1976, quando então se transferiu para o "Centro de Estudos do
Ciclo do Ouro" (Casa dos Contos), sob a orientação do historiador
Tarquínio J. Barbosa de Oliveira.
Embora atrasada 9
anos, por falta de oportunidade no momento próprio, a contestação só
foi possível graças à existência daquele registro com não mais que
5 páginas escritas, o que demonstra a importância da preservação de
documentos. Graças a eles, conhece-se a história como aconteceu, e
se evita seja reescrita, mesmo com boas intenções.
nbatista@uai.com.br
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