PONTO DE VISTA DO BATISTA

"bubiças" como disfarce

Deixemos de lado, pelo menos nesta edição, temas pesados, provocativos, para nos ocuparmos de considerações descomprometidas em torno de questões que, mesmo não causando prejuízos ou alterando a vida do indivíduo, provocam a implicância deste autor em relação a distorções de conceitos e significados de termos utilizados no dia-a-dia. Qualquer indivíduo tem o direito de implicar com alguma coisa, e esse direito eu exerço a todo o momento, quando oportunidade surge.

Comecemos pelo automóvel e seu uso na interação com o nosso círculo social. O automóvel tem por objetivo transportar passageiros, não importando aqui se mediante pagamento ou não. E para que o automóvel se desloque, há que contar com o serviço do motorista ou condutor, que já foi denominado chofer (chauffeur, do francês). Logo, o automóvel transporta passageiros e condutor.

Entretanto, de tempos para cá, meios de comunicação, em se referindo ao passageiro ao lado do condutor, chama-o carona ou caroneiro. Dicionários o definem como pessoa que viaja sem pagar em qualquer veículo, mas há que considerar o fato de que, em veículo particular de terceiros, pelo menos em tese, não se paga; não se paga porque a exploração do serviço de transporte de pessoas, só pode ser exercida por pessoa e veículo devidamente habilitados e matriculados. Logo o verdadeiro carona ou caroneiro é passageiro não pagante em veículo de aluguel pessoal (táxi) ou coletivo (ônibus, por exemplo). Em veículo particular de terceiros, pode-se considerar carona ou caroneiro o passageiro eventual, desconhecido ou apenas conhecido. É carona a esposa (ou marido) do (a) condutor (a); são caroneiros os filhos? E os amigos, habitualmente ao lado condutor? Para alguns, o assento da frente, ao do condutor, já virou "banco do carona". E como? Em veículo nenhum carona tem banco, e este, em veículo particular o banco é destinado ao passageiro. A figura do carona existe em razão da cortesia, amabilidade, cordialidade e solidariedade do condutor ao semelhante, eventualmente, sem condução. Não fosse por isso, não existiria.

A população, no mundo e, em especial, no Brasil, está a envelhecer, em razão de melhor qualidade de vida e também dos avanços da ciência e da medicina. Pessoa acima dos sessenta anos, tendo como parâmetro a média da vida humana, é considerada velha. Mas, em certos círculos, o termo "velho" virou palavrão em referência a quem alcança os sessenta ou consegue ultrapassar essa barreira, chegando a preocupar o governo, na área previdenciária. Em seu lugar optou-se por "idoso". E eu pergunto: qual a diferença? A condição da pessoa melhora com isso? Velho ou idoso, o indivíduo persiste na mesma condição: rico ou pobre, analfabeto ou letrado, doente ou com saúde excelente. É "bubiça", como diria minha avó, para disfarçar o preconceito contra pessoas mais velhas e também esconder a incompetência governamental no amparo aos das mais altas faixas etárias. Preferência no atendimento em fila, gratuidade no transporte urbano, além de meio ingresso para eventos culturais são miçangas diante do muito que tais pessoas já deram de si e, hoje, não têm retorno mediante aposentadoria digna.

E quanto à faixa etária, criaram a tal terceira idade. De onde saiu isso? Se existe a terceira idade, a começar nos sessenta, quando termina a primeira e começa a segunda? Embora tenha tempo suficiente contado, recuso-me a entrar, "formalmente", na terceira idade. Digo que tomei bomba na primeira e continuo a empurrar o tempo para frente! Velhice não chega com data marcada, pois depende da atitude mental de cada um diante da vida, e, digo que há gente velha, claudicante aos vinte, bem como há jovens saltitantes, na casa dos noventa!

Depois de cento e vinte e dois anos, o Brasil voltará a ser governado por mulher. A presidente eleita será a primeira, na República, não esquecendo que a primeira mulher a governar o Brasil foi a princesa Isabel, mas parece haver gente disposta a passar borracha naquele período histórico.  Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon d'Orléans governou o Brasil por mais de três anos, divididos em três períodos distintos, e assinou duas leis importantes no abolicionismo: A Lei do Ventre Livre e a Lei Áurea. Quanto à presidente eleita, tão logo se anunciou sua vitória no segundo turno, realizado em 31 de outubro último, revelou-se sua preferência pela variável "presidenta". A vencedora do pleito comete dois equívocos. Quanto à língua, embora alguns dicionários registrem "presidenta", "presidente" é a forma correta por se tratar de comum de dois, ou seja, termo empregado para masculino e para feminino. O outro equívoco é quanto à Constituição, (incluindo-se as constituições das unidades federativas e leis orgânicas municipais) na qual não constam cargos sob a forma feminina. Cheirando a cafonice, "presidenta" é parente de "chefa", sinônimo de "gerentona", termos pejorativos não condizentes com o cargo máximo da República.

nbatista@uai.com.br

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