Vivemos, cada vez
mais, num mundo de realidades forçadas, ou melhor, de necessidades
manipuladas em razão de interesses "maiores". Em outras
palavras, o mundo poderia estar em outro estágio, se não fossem os
obstáculos colocados para atrasar a marcha da humanidade só porque, se
mantido aberto o caminho, alguns perderiam cifrões, embora possam ser
até bilhões os seres com carência daqueles. Por muito que se abram
fontes de informação, e, por mais democráticos que sejam os governos,
ainda assim nem tudo é informado ao público, que continua amarrado à
realidade de interesses político-econômicos, não superados porque esta
é vontade dos senhores das decisões. Assim é que parodiando
Shakespeare, há mais coisas entre a realidade posta e a suposta do que
vislumbra nossa pobre imaginação. Aliás, a célebre assertiva "há
mais coisas entre a o céu e a terra do que sonha nossa vã
filosofia", atribuída a Shakespeare, pode encerrar o mistério
de sua própria existência, contestada por alguns. Para defensores dessa
tese, Shakespeare seria a face oculta de personagem importante nos
negócios de Estado, nada mais nada menos do que Francis Bacon, filósofo
e chanceler da Inglaterra (reinado de Jaime I). Segundo conceitos de
então, a dramaturgia era incompatível com o alto cargo no reino, razão
pela qual Francis Bacon teria usado o pseudônimo William Shakespeare para
assinar suas obras.
Bom, deixemos
Shakespeare, ou Francis Bacon, lá entre os séculos dezesseis e dezessete
e consideremos o objeto de maiores interesses no mundo atual: o petróleo.
Na economia e na política, o petróleo provoca reações violentas da
mesma forma que sua natureza física diante do fogo, a ponto de
desequilibrar economias e provocar guerras. Lembremo-nos da do Golfo. De
quebra temos ainda os desastres ambientais: os imediatos, resultantes de
seu derramamento em repetidos acidentes e os malefícios conseqüentes da
utilização de seus derivados, destacando-se entre eles a poluição
atmosférica. Embora especialistas alertem sobre o esgotamento (que não
estaria muito distante no tempo) das reservas petrolíferas, tudo continua
a girar em torno do ouro negro como se este fosse inesgotável. Projetos
no sentido de se desviar do uso do petróleo, como é o caso do
Pró-álcool brasileiro, são abandonados, sabotados e ridicularizados.
Reconhece-se que uma transição entre o petróleo e outras fontes de
energia não pode ser feita abruptamente sem o risco de colapso mundial,
porém a gradação dessa mudança já deveria ser implementada, assim
como se buscam outras fontes de energia elétrica.
Da França vem a
novidade de um carro movido a ar comprimido. Não se trata de projeto para
o futuro, mas já pronto para ser produzido em série. E mais: sua
apresentação no Brasil aconteceu dia 26 de outubro, no Hotel Sheraton
Mofarrej, São Paulo. Cerca de seiscentas pessoas estiveram presentes ao
evento, mas, curiosamente, poucos jornais se fizeram representar. A
televisão nem deu o ar da graça. O assunto deveria provocar verdadeira
"ebulição" nos meios de comunicação, pois se trata de
invenção revolucionária para a economia pessoal e para a preservação
do meio ambiente. Segundo o inventor, Guy Nègre, e a indústria francesa,
MDI (Motor Development International), que o fabricou, o veículo tem
autonomia para trezentos quilômetros ao custo de quatro reais. A
desvantagem, segundo os amantes da velocidade, é sua limitação em 130
km horários. Mas, com a velocidade máxima nas rodovias a 110km/h para
que mais na capacidade do veículo? Se não "vingar" o carro
movido a ar comprimido, não será a primeira invenção politicamente
correta repudiada em função de interesses dos tubarões da economia.