Há dois anos, os
olhos do mundo estavam voltados para Honduras, pequeno país de sete
milhões e meio de habitantes, localizado na América Central. Em
outras circunstâncias, os hondurenhos estariam a levar suas vidas,
longe dos holofotes da mídia e das considerações prepotentes de
governos do dito primeiro mundo, mas informação de que seu
presidente fora preso, de pijama, antes de o sol nascer, por um
general do exército, alterou o status hondurenho ante os olhos dos
donos da política mundial.
Prisão de
presidente da república, no exercício do cargo, em plena madrugada,
de pijama e, ainda por cima, por um general do exército, não pode
ser outra coisa senão quartelada ou golpe militar. Assim se espalhou
a notícia e assim se estabeleceu o bafafá. Coitadinho do presidente,
democraticamente eleito, fora arrancado do seu leito e expulso do
país por brutamontes fardado, armado!
Parecer,
parecia, mas golpe militar não era. Alguém já viu golpe militar em
que os militares ficam fora do novo governo? Se, em Honduras, houve,
foi a primeira vez, porque quem assumiu a presidência foi o
presidente do Congresso Nacional, de acordo com o que determina a
Constituição daquele país E continuou a parecer porque os grandes,
dentro da política internacional, não conheciam a situação política,
vivida por Honduras naqueles últimos meses e, tampouco, a tinham
analisado à luz da sua Constituição. A prepotência dos grandes não
lhes permite aceitar que pequeno país, do dito terceiro, quarto ou
último mundo, se conduza por constituição capaz de impedir sonhos
continuístas, meio pelo qual déspotas podem nascer.
A Constituição
de Honduras não permite a reeleição do presidente, tem como
obrigatoriedade a alternância no poder e trata violação dessa regra
como traição à pátria. Mais à frente, o mesmo documento enumera
cinco situações em que se perde a cidadania; e um delas diz: "Por
incitar, promover ou apoiar o continuísmo ou a reeleição do
Presidente da República". Por esse dispositivo, percebe-se que,
teoricamente, Zelaya deixou de ser presidente no momento em que quis
realizar referendo popular para tentar alterar a Constituição no
tocante à reeleição do presidente da República. De acordo com a
Constituição, ele já havia perdido a cidadania hondurenha, primeira
condição para ser presidente da República. Sua prisão não fora
iniciativa militar, porém, determinada pelo Ministério Público, em
cumprimento da mesma Constituição. O único ato consumado, e não
previsto em lei, foi sua expulsão do território hondurenho,
explicado, posteriormente, ter sido feita para sua própria
segurança.
A partir daí a
corrente pró volta do Zelaya ao poder se criou, Brasil à frente, no
esquema de repatriação do mesmo, incluindo-se abrigo na embaixada
brasileira. E foi aquela patuscada do governo tupiniquim que, na
escala da política internacional, acabara de trepar num tijolo e
fazia o que condenava na postura de outros governos: interferência
em assuntos internos de outrem. Os governos, mundo afora, mesmo
depois de perceber o equívoco, no julgamento do caso Honduras, não
deram o braço a torcer. E a opinião pública foi manipulada e
induzida a ver o caso como golpe, porque falta, aos grandes,
humildade bastante para reconhecer seu próprio erro, considerando
Honduras como país incapaz de se governar dentro dos princípios
democráticos. Tudo se fez, de fora, para que Zelaya fosse
reconduzido, incluindo-se exigência da ONU e ultimato da OEA, que
ameaçou Honduras com expulsão daquele organismo, se o poder não
fosse restituído a Zelaya, em prazo de setenta e duas horas.
Escorada em
sólidas instituições, como o Legislativo e o Judiciário, Honduras
resistiu bravamente, não se submetendo às imposições externas.
Eleições já previstas no calendário eleitoral foram realizadas e a
sucessão se processou normalmente com a posse do eleito que, diga-se
de passagem, era da oposição.
Passados dois
anos depois daquela turbulência, Honduras voltou ao esquecimento na
mídia internacional e, mesmo na internet, notícias sobre aquele país
ainda são, praticamente, as mesmas em torno do "golpe de estado" ou
"golpe militar". Assim como nunca se viu golpe militar em que
militares ficam fora do governo, também nunca se viu eleição,
agendada de acordo com o calendário eleitoral, se realizar logo após
de golpe militar. Nem esses detalhes foram lembrados pelos que se
encarregaram espalhar a mentira do "golpe". Nenhuma nota, nos
grandes jornais, apontou os dispositivos constitucionais nos quais
se basearam as demais autoridades constituídas para afastar Manuel
Zelaya da presidência da República.
No cenário
internacional Honduras foi recolhida à sua insignificância, em
contraste com sua grandeza interna, assentada na solidez de suas
instituições e altivez diante do ladrar dos cães, forçados, em
seguida, a sair com o rabo entre as patas!