PONTO DE VISTA DO BATISTA

Cão leal e homem desleal 

Avalia-se o grau da higiene praticada por um povo pela quantidade de sabão que ele consome. Não havendo grandes desperdícios, até que o método pode ser válido, porque higiene não é bem uma questão de consumo, mas um conjunto de cuidados e critérios que promovem e mantêm a limpeza dentro de padrões, de acordo com o local, momento e circunstâncias, sem se falar na higiene pessoal, que constitui capítulo à parte. Indo da higiene aos sentimentos de solidariedade humana, pode-se dizer que esta também pode ser avaliada dentro da comunidade, observando-se o grau de cuidado em relação a outras espécies, principalmente os ditos domésticos ou de estimação. Pelo quanto de cães abandonados nas ruas, e se verdadeira aquele termo de comparação, conclui-se que falta, e muito, o espírito de fraternidade tão cantado e decantado nesta época do ano entre os humanos.

Enquanto circulam mensagens de felicitações pelo Natal e Ano Novo, matilhas de cães são vistas a zanzar pelas ruas, à cata de comida, de abrigo para se esconder das intempéries e até do dono que fechou seu mundo à vida daquele pobre animal, quase sempre depois de este lhe proporcionar alegrias e satisfações. Já sei que alguns estarão a se perguntar que, diabos, teria a ver o abandono dos cães com o propalado espírito do Natal. Tem porque todo o burburinho em torno do Natal pode não passar de uma máscara sob a qual muitos escondem mazelas. Esqueléticos, sujos e, na maioria das vezes, feridos ou doentes, eles constituem sintoma de mal maior dentro dos lares, onde pode estar em falta o afeto ou, no mínimo, o espírito corporativista da espécie dentro da mesma família.

Não estando obrigado a adotar um cão, por exemplo, não se entende porque alguém o faça e algum tempo depois o jogue à rua, esquecendo-se até de que o próprio animal já criou um elo sentimental, que dificilmente se romperá sem sofrimento. Não se entende à primeira vista, porque se perscrutado com cuidado, no ato de abandono do animal pode estar configurada rejeição inconsciente a membro da família. A rejeição não se manifesta objetivamente contra a pessoa, sabendo-se de antemão que isso será questionado, no mínimo, pelo seu círculo de convivência, mas ela está lá, no íntimo, e chega o momento em que o agente tem necessidade de manifestá-la. Na mesma casa, havendo um cão, este acaba por receber toda a carga de maus tratos, que pode chegar ao abandono. Outro animal pode ser a vítima, mas é o cão que, ironicamente, paga preço mais alto. Logo ele, largamente lisonjeado como o melhor amigo do homem! É o que recebe em troca de sua lealdade, próxima à subserviência. O ser humano que é dominador, por natureza, mas nem sempre encontra quem lhe seja subserviente, elege como alvo de sua tirania o cão que, mesmo depois de receber pancada, reage positivamente ao primeiro estalar de dedos.

Essa reação compensa, no ego do bicho homem, parte da frustração sentida por nem sempre conseguir seu intento dominador sobre o semelhante. Só por isso, o cão é considerado seu melhor amigo. Por reagir de forma contrária ao cão, ser livre e não se submeter aos caprichos humanos, o gato é detestado. Ao mesmo tempo é invejado, porque é verdadeiramente livre como o homem gostaria de ser, mas não é devido a preconceitos e convenções aos quais se submete, para ter direito à vida civilizada. Bem que gostaria, para se vingar, de ter o gato como objeto do abandono nas ruas, mas a rua já dele, assim como qualquer outro espaço. Cabe então ao melhor amigo o papel de bode expiatório, ao ser expulso fisicamente em lugar do semelhante expulso do coração!

nbatista@uai.com.br

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