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PONTO DE VISTA DO BATISTA
Temos "carnabrás"
Para quem vivenciou e brincou outros carnavais, do
tempo do confete e serpentina em cores vivas, mais o lança-perfume
ainda não transformado em droga, sambas e marchas de composição
exclusiva para a folia, é difícil conformar-se com a transformação
da maior festa popular naquilo que ela hoje é. Antes que venham com o
saudosismo como rótulo para esta reflexão (a quaresma é o tempo
próprio para isso), digo que a evolução não merece ser contestada,
desde que represente mais liberdade (com responsabilidade) e acrescente
valores humanos às realizações, ensejando a participação de mais e
mais indivíduos dos benefícios preconizados.
Não foi isso que aconteceu com o carnaval, uma festa
outrora do povo, com o povo e para o povo, sem imposições de regras
além do que já estabelece a Lei. Pode-se dizer que ele retroagiu e
limitou a liberdade do povo no que toca à sua capacidade de produzir
cultura, entretenimento e, sobretudo responder ao que o incomoda dentro
da sociedade. Deixando de lado os excessos do prazer, condenáveis sob
quaisquer circunstâncias e em qualquer época, o carnaval era o
extravasamento da alegria num mundo do faz de conta durante três dias,
daí a indispensável indumentária, dita "fantasia", sob o
qual o folião se transformava no personagem escolhido. Mas em conjunto,
era a época em que a comunidade, grupos dentro dela e a sociedade de um
modo geral reagiam com críticas aos fatos e seus protagonistas, ou, com
enaltecimento se havia merecimento. Nada do que acontecia durante um ano
escapava à imaginação ferina dos críticos, nas músicas, fantasias e
alegorias.
De repente, por força de distorções na
arrecadação e distribuição de direitos autorais, a música
carnavalesca deixou de ser composta. E este foi o primeiro golpe no
carnaval. O mesmo fator determinou o fechamento dos salões aos bailes,
pois o custo de sua abertura sem uma previsão realista de resultados
inviabilizava qualquer iniciativa. Enquanto isso, o fenômeno das
escolas de samba cariocas era copiado em todo o país, em detrimento das
manifestações locais, vindo em seguida a transformação de seus
desfiles em espetáculos de cunho turístico. Não suportando sozinhas
os custos de tais realizações umas apelam para as administrações
municipais, outras para a contravenção e mais recentemente para o
patrocínio empresarial. Mas nas médias e pequenas cidades prevalece o
hábito de cobrar da administração municipal o patrocínio para o
desfile de tais agremiações, em detrimento da infra-estrutura
pública, esta sim, de obrigação das prefeituras. Nada melhor para os
políticos do que manter a dependência de grupos, razão pela qual,
interesses politiqueiros atrelaram-se à realização do carnaval com o
patrocínio, que abriu caminho para a interferência oficial direta no
evento. Há que pensar nos votos a serem cooptados nas eleições!
O povo nem percebeu que assim estava perdendo sua
liberdade de criar e fazer o carnaval. A lacuna aberta pela passividade
das massas, diante das escolas patrocinadas com o dinheiro público, foi
espertamente ocupada pelo anticarnaval baiano surgido com o advento da
tralha eletrônica, montada sobre caminhões ou sobre palanques. No
verdadeiro carnaval manda o povo, cabendo às autoridades tão somente a
estrutura e a segurança públicas. E, para ser atração turística,
basta a imaginação solta dos artistas do carnaval, somada à vontade
da comunidade, das agremiações e à alegria dos foliões. Assim o povo
deixou desaparecer o carnaval e permitiu o surgimento do "carnabrás"
nbatista@uai.com.br
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