PONTO DE VISTA DO BATISTA

Carnaval, antes e depois de "estatizado"

O carnaval passou e, ao contrário dos de outrora que deixavam saudades e alimentavam expectativas em torno do ano seguinte, deste último ficaram rastros de decepção, reclamações e de indignação, capazes de perdurar na memória coletiva assim como ficaram os dos bons carnavais feitos pelo povo, com o povo e para o povo, em todo o Brasil, mas de modo especial no município de Ouro Preto, onde a criatividade, provocada pela crítica e o prazer de promover o melhor em diversão, fazia do reinado de momo um mundo de fantasia.

O que contava naqueles carnavais era a alegria, dos oito aos oitenta anos de idade, nas ruas com os anônimos "sujos" e "mascarados" durante todo o dia, nos blocos e cordões organizados à noite e, por fim, os bailes em recintos fechados com orquestras de boa qualidade e bem ensaiadas. A Ouro Preto, escolas de samba chegaram muito tempo depois, trazidas sob pobre arremedo das do Rio e a primeira estabelecida no Morro Sant’Ana. E, mesmo com esta e outras posteriormente criadas, muitos carnavais se fizeram na Rua São José sem que destaque se conferisse a tais agremiações, pois sua mesmice contrastava com surpresas e espontaneidade dos demais blocos, que ainda ofereciam música ao vivo, ao contrário da percussão massacrante daquelas escolas.

O único grupo de percussão, genuinamente ouropretano, era o Clube dos Lacaios, que fechava todos os desfiles, tendo à frente grupo de tocadores de clarim a cavalo. Seus vários bumbos, em uníssono e à plena capacidade de som, eram capazes de fazer estilhaçar vidraças da Rua São José, se estas permanecessem fechadas durante a passagem daquela agremiação carnavalesca. E era ele também que encerrava o desfile na terça-feira, última noite de carnaval, com apresentação de vários carros alegóricos.

Não havia "incentivo" da prefeitura e nem "alienígenas" baixavam a Ouro Preto para produzir a folia, pois esta já estava no espírito do povo, acumulada durante todo o ano para explodir naqueles três dias, somente três e não toda a semana. Era o carnaval arte, carnaval da imaginação e da crítica com muita música, especialmente criada para a ocasião!

Das sete ou oito escolas de samba que chegaram a dominar o carnaval de Ouro Preto, somente três desfilaram no recente carnaval, as demais justificando ausência por não terem recebido o "incentivo" municipal em tempo hábil. É o grande contraste entre o antes e o agora! Antes o povo se virava – em todos os sentidos – e fazia o melhor carnaval. Depois de estatizado, municipalizado e dirigido por políticos, o carnaval virou sinônimo de cidade entupida de gente, sem água, muito barulho sob influências estranhas à cultura local, embora tenha sido feita muita propaganda do carnaval tradicional com música própria. Pura propaganda enganosa, da qual tentarão se safar com o reduzidíssimo espaço do Largo da Alegria!

Grande contraste também entre entidades culturais nascidas e mantidas no município de Ouro Preto. Umas aparecem durante três dias do ano, e recebem "incentivo" municipal, e outras como as bandas de música, atuam durante todo o ano, oferecem cursos gratuitos de música, colaboram na promoção de tantos eventos e não têm o mesmo "incentivo". Antes, dizia-se que as bandas não recebiam porque não estavam organizadas em associação, assim como estavam as escolas de samba. As bandas de música então se organizaram na única associação do gênero em território nacional, preenchendo o requisito apontado como chave para merecer o apoio legal.

Agora é dito que "incentivo" às bandas é inconstitucional, mas em outros municípios a Constituição não é a mesma? E outra pergunta: não é inconstitucional "pagar" banda de música por se apresentar em eventos de terceiros?

nbatista@uai.com.br

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