PONTO DE VISTA DO BATISTA

Carnaval alienígena em Ouro Preto

Evoé! Chegou o carnaval! E lá vou eu pra Rua São José, corredor da folia. Por lá passam "As Gatas do Rosário", "Os Baitolas", "Os Camisolões", "Charanga do Carlota", "Conjunto Brito Filho" (ou Batido da Lata, por ter toda a percussão em latas) "A Nata da Sociedade", o "Vai quem Qué", e diversos outros blocos, alegres caricaturas dos costumes sociais e da vida da cidade, sem deixar de criticar, fundo, fatos e figuras políticas; tudo encerrado com o monumental desfile do Clube dos Lacaios (Zé Pereira) puxado pela banda de clarins a cavalo. O ribombar dos bumbos, alternado com o matraquear de caixas e taróis, faz estremecer vidraças. O bloco avança em meio aos foliões avulsos, fantasiados segundo temas mais exóticos, facilitado pela ação dos "cariás" e suas lanças a tirar chispas no calçamento. Os catitões, entre um rodopio e outro, observam do alto a retaguarda do desfile, que mostra na curva do Bar Brasil o primeiro dos três grandes carros alegóricos. A tradicional e centenária sociedade carnavalesca completa o percurso da rua sob palmas e exaltações do publico, faz seu giro no Largo da Alegria e retorna ao Antônio Dias, fazendo assim a transição do carnaval de rua para o de salão com duração até o raiar do dia. Marchas e sambas ecoam por todos os cantos da cidade, os poucos bares e restaurantes são redutos de foliões, e a rua regurgita de gente, dos oito aos oitenta, envolvida com o carnaval. O tríduo momesco é momento mágico, do qual se vale o povo para extravasar a alegria e satirizar o que lhe causa incômodos, sobretudo o que vem da área política. Músicas e alegorias visuais refletem o espírito popular em relação a muitos aspectos da vida e a espontaneidade da festa é o principal componente do clima de liberdade foliona, mesmo em tempo de restrições.

Mas o que sinto, vejo e ouço ao chegar à Rua São José não é carnaval. Tudo me parece estranho na grande multidão que se espalha por todo o centro da cidade. Na Rua Direita, locomover-se é quase impossível por vontade própria. Melhor deixar-se levar por ondas de gente, escolhendo de antemão o sentido em que se movem. Não há fantasiados, os sons que ouço não são de carnaval e muito menos se relacionam com Ouro Preto, que tinha, outrora, a musicalidade traduzida exclusivamente por talentos locais, formados nas entidades do gênero. O som ouvido, bem como quem o produz são alienígenas, e, mais à frente, sou informado que alienígena é também quem produz o evento. Sabe-se que, há muito, o carnaval deixou de ser festa do povo, pelo povo e para o povo. Municipalizou-se em primeiro instante, entrando agora na onda da terceirização que divide a festa, dita popular, em nuances diversas, puxadas pela área vip com ingresso a peso de ouro. É o carnaval voltando a se dividir em classes, depois de banido dos salões por excessivas imposições legais de mãos dadas com a ganância de entidades setoriais, e unificado, nas ruas, sob argumento demagógico de que seria de graça e igual para todos. Converte-se o carnaval em espetáculo para turista, que também gostaria de ver carnaval diferente, ficando pobres e nativos a lamber os beiços de longe, tão iludidos como os instrumentistas das várias sociedades musicais, aos quais se prometeu contrato, para que restabelecessem o verdadeiro som do carnaval local. Novos blocos estão impedidos de existir e os existentes, limitados, carimbados e sujeitos a multa se caídos em desgraça perante os novos senhores do carnaval, açambarcadores do cetro de sua majestade o Rei Momo I e Único.

Pelo jeito, para o primeiro o dia de folia, melhor é aceitar sugestão da marchinha que dizia: "domingo é dia de pescaria.... oi, lá vou eu de caniço e samburá..." porque, hoje, mais vale sair pra pescar!

nbatista@uai.com.br

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