PONTO DE VISTA DO BATISTA

Carne podre na geladeira

Na televisão, a todo o momento e paralela à propaganda eleitoral, desenvolve-se, por meio de pequenos filmes, campanha por melhor escolha dos candidatos a prefeito e a vereador, nas eleições de outubro próximo. A intenção é das melhores porque, infelizmente boa parte do eleitorado, não tendo consciência formada sobre a importância do ato de votar, escolhe candidatos com base em critérios errôneos, o que pode resultar na vitória dos piores. A conseqüência imediata é a administração pública cair nas mãos de pessoas desqualificadas para o exercício do cargo, descomprometidas com a ética, desonestas ou corruptas, pelo prazo de quatro anos, uma vez que é difícil a cassação de mandato em virtude de leis criadas pelos políticos, os mesmos que poderiam ser cassados. Tais leis contêm brechas por onde escapam e se tornam intocáveis os visados até o fim de seu prazo no cargo ocupado. Há ainda a considerar a fragilidade das mesmas leis e regulamentos que regem o sistema político-partidário-eleitoral em relação ao eleitor. Nada lhe é garantido, nem mesmo o direito de se candidatar, pois antes é obrigado a filiar-se a partido, mesmo que não aceite nenhum desses existentes e rejeite o esquema, no qual prevalece a vontade das cúpulas. E a incoerência das incoerências é que, eleito, o político pode mandar o partido às favas e continuar no cargo! Há conhecidíssimo político no cenário nacional que usa partido para se eleger.

Por esse esquema, dentre os candidatos menores (sem projeção) só se candidatam os chamados bons de voto, populistas, que dizem amém aos chefões. Até nos comícios, candidatos menores são limitados pelos chefões em sua fala. Só podem dizer aquilo que o chefe do partido manda. Gostaria de saber quantos candidatos já leram o estatuto de seu partido ou quantos conhecem sua filosofia, seu programa de trabalho.

Nesse estado de coisas quase sempre não sobra ao eleitor opção coerente com a qualidade que se quer para a escolha nas urnas Ao eleitor só a obrigação de votar, sob ameaça de punição, com base no "prato feito" preparado nas chamadas convenções partidárias! Portanto, a campanha feita sob encomenda da Justiça Eleitoral se configura válida quanto aos objetivos, porém inócua para o eleitor, que se acha refém do sistema nitidamente favorável aos chamados "donos dos partidos". Debita-se ao eleitorado a culpa pelas más escolhas, mas ele é induzido ao erro pelo próprio sistema político-partidário!

Os filmes da campanha são irritantes, dando a impressão de seu criador ter colocado nela sua própria irritação e a Justiça Eleitoral (que a aprovou) estar a fazer protesto velado contra o estado de coisas na política. As analogias usadas nos filmes, para mostrar ao eleitor as conseqüências da má escolha, pecam pelo ridículo e pela injustiça, por exemplo, na figura da laboriosa abelha. Mas o absurdo da abelha (voando, ela nem consegue entrar no ouvido humano) durante quatro anos no ouvido, transposto para a realidade, configura-se como o prefeito que, condenado por peculato, por algum tempo administrou município de trás das grades. Não creio que isso aconteça em país dito sério; só no Brasil!

Outro dos filmes da campanha ressalta o fato de o Brasil ter o sistema de votação mais moderno, eficiente e rápida apuração do mundo. Isso, de fato, nós temos, embora alguns o critiquem como passível de fraudes, como se existisse algum livre delas, ou que os sistemas anteriores fossem mais seguros. Entretanto, de nada nos adianta a moderna tecnologia a serviço de algo viciado e corrompido. É como ter geladeira para guardar carne podre!

Enquanto não vem a verdadeira democracia, livre de partido político e praticada a partir da sociedade organizada, aos que não aceitam esse estado de coisas a opção é o VOTO ZERO; isto é, preenchimento com zeros os números dos candidatos. Partidos políticos já fizeram mal demais à humanidade!

nbatista@uai.com.br

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