Cascudos, chimangos e
música
A Sociedade Musical
União Social, segunda banda de música mais antiga do município de
Ouro Preto e colocada entre as mais antigas de Minas Gerais, completa,
em 2004, cento e quarenta anos de atividades ininterruptas. A auspiciosa
marca no tempo será comemorada nos dias 4 e 5 de setembro próximo,
compartilhando a satisfação com a comunidade onde se insere e da qual
recebe apoio no cumprimento de suas propostas sócio-culturais. Melhor
momento, então, não há para tornar o público informado sobre
questões históricas referentes às bandas de músicas, notadamente a
aniversariante, além de fornecer subsídios às pesquisas escolares
que, felizmente, já são feitas em torno dos fundamentos da cultura
local. É o que será feito neste espaço até setembro próximo.
Desperta a atenção
de curiosos e estudiosos o fato de, justamente em Cachoeira do Campo,
sobreviverem as quase sesquicentenárias bandas, quando poderiam ter
sido as criadas na sede municipal, então capital da Província e depois
do Estado. Sabe-se que antes das duas atuais corporações existentes na
cidade de Ouro Preto, outras ali floresceram e se extinguiram. Em
Cachoeira do Campo, ao contrário, as duas e únicas, fundadas ainda em
meados do século dezenove, sobreviveram a todas intempéries
sócio-poltico-econômicas e continuam a produzir cultura.
O pendor musical dos
cachoeirenses vem do período colonial, despertado nos saraus realizados
para entretenimento do governador da capitania no Palácio da Cachoeira.
Feita a independência do Brasil, fechado o palácio e,
conseqüentemente, cessadas as festas, os cachoeirenses continuaram com
as atividades musicais sem, contudo, uma organização grupal dos seus
músicos, até que, em 1856, foi fundada a Banda Euterpe Cachoeirense,
por iniciativa do capitão Rodrigo de Figueiredo Murta e regência do
mestre Luís Tibúrcio, da cidade de Piranga. A política no período
imperial era feita por intermédio de dois partidos e na banda havia
músicos das duas tendências, embora fosse o fundador líder local do
Partido Conservador. Cite-se de passagem que, em todo o Brasil,
militantes e simpatizantes dos dois partidos tinham apelidos curiosos.
Os ligados ao Partido Conservador eram chamados "Cascudos" e
os do Partido Liberal, "Chimangos". Diz a história oral que,
em 1864, diante da necessidade de substituir o mestre LuísTibúrcio,
que se demitira por razões particulares, dois candidatos se
apresentaram. Coincidentemente, um (Francisco Carlos de Assis Pereira)
era vinculado ao Partido Conservador, e outro (João Gonçalves
Magalhães) ao Partido Liberal. Teria, então, havido manipulação para
que fosse eleito o primeiro, que era correligionário do fundador da
banda. E tudo teria continuado como antes, se a vitória não tivesse
sido comemorada com uma serenata, para a qual músicos da ala liberal
não foram convidados. Percebida a discriminação, o candidato
derrotado reuniu em torno de si os músicos "chimangos" (da
ala liberal) e fundou a segunda banda de música, à qual se deu o nome
de Sociedade Musical União Social.