Já se foi o tempo do
indivíduo isolado, sem comunicação, a menos que assim o deseje, pois
meios não faltam para que todos estejam interligados, até mesmo os
mais pobres. E é tudo rápido, ou instantâneo, não importa a
distância a separar dois pontos de contato; não mais a notícia
atrasada na proporção direta do tempo das viagens que duravam meses
e anos.
Exemplo curioso dessa
defasagem encontra-se (ou, pelo menos, encontrava-se) registrado no
arquivo municipal de Ouro Preto. No período colonial, chegou a Vila
Rica a notícia do nascimento de príncipe na casa real portuguesa.
Conforme usos e costumes da época, o governador, representante dos
interesses da coroa, decretou três noites de luminárias na cidade,
em sinal de regozijo por nova vida no berço real português. As
luminárias consistiam de lanternas que, obrigatoriamente, deviam ser
colocadas nas fachadas das casas, complementando ornamentação
apropriada mais visível à luz do dia. Talvez, desse costume, tenham
advindo as atuais lanternas fixas na parte alta das janelas, acesas
em ocasiões especiais com o simples premir de botão. Conforme a
natureza da data comemorada ou do evento, além das luzes nas
sacadas, ofereciam-se espetáculos pirotécnicos a partir de base
situada na subida do Morro São Sebastião. Esse lugar era conhecido
como "Volta da Girândola", em alusão àquele tipo de foguete, muito
apreciado então. O povo, sob a pressão do poder português, saudou
com festas o nascimento do pimpolho real.
Mais à frente, quase um
ano depois, outro documento registra o convite para a Missa de
Réquiem pela morte do mesmo príncipe. Conferidas as datas dos
festejos em Vila Rica e da morte do infante, percebe-se que esta já
havia acontecido, quando as comemorações aqui se realizaram. Hoje,
no mundo civilizado, isso é praticamente impossível acontecer!
Qualquer pessoa com celular à mão pode dar furo de reportagem para o
outro lado do mundo, no momento em que o fato acontece! E alguém sem
celular é como alienígena, difícil de encontrar.
Mas - paradoxo dos
paradoxos! - quando dele deveriam se valer para evitar transtornos a
terceiros, pessoas se omitem, não usam o poderoso e mais presente
instrumento; tão presente, que já o colocam como a quarta das
principais partes em que se divide o corpo humano: cabeça, tronco,
membros e... celular! A anedota do galanteador que, para atingir
quem lhe chama a atenção, se dirige ao lulu da dondoca e lhe pede o
telefone, está ultrapassada, pois cachorro de madame também já tem
celular. Até há poucos anos, ouvindo alguém a falar sozinho na rua,
deduzia-se de imediato ser doido ou bêbado. Atualmente, esse
julgamento levaria para hospício metade das pessoas encontradas na
rua.
Liga-se pelo celular por
qualquer motivo, em qualquer lugar e a qualquer momento.
Transformou-se o aparelhinho em ícone de status, meio de
autoafirmação, e sua utilização em público é sinal da presença do
indivíduo na rede de comunicação que, em tempos idos sem
interferência tecnológica, se chamava "rádio peão". Os toques de
chamada do celular merecem considerações à parte, tão grande é a
variedade, desde trechos de música clássica, repetitivos, até
grunhidos gravados pelo próprio dono do apetrecho de comunicação.
Fazem tormento quando dão o ar da graça, sob a forma musical de
péssimo gosto, em ambiente de muita gente e relativo silêncio. Até
que a dona desconfia que o som vem da sua bolsa, dentro de outra, e
bate em retirada ou, pior, atende ali mesmo, o realejo desarranja
todo o ambiente, tira de foco o objetivo da reunião e acaba com os
nervos de que quem está no seu comando.
Tudo isso acontece à roda
onde se vive, por conta do celular, esse oportuno e às vezes
inconveniente, importante e às vezes dispensável, útil e muitas
vezes tornado inútil por quem o possui. Transtornos e prejuízos
podem ser evitados se compromissos assumidos são cumpridos, mas
imprevistos acontecem e todo o combinado pode não se produzir.
Contudo, minimizações dos efeitos se conseguem, contatando-se com a
outra parte para preveni-la sobre o imprevisto. É aí que o celular
se torna inútil, trambolho nas mãos do prestador de serviço, por
exemplo, que agenda visita ao cliente, não cumpre e nem avisa que
não pode comparecer; nas mãos de negociante eventual, que combina
hora, local e deixa a outra parte interessada, com cara de pateta,
sem qualquer explicação, ainda que exista o celular entre elas.
Pessoas, fiéis ao compromisso profissional, desmarcam ou adiam o
lazer com a família ou com amigos, empurram para frente a resolução
de assuntos de seu interesse, para atender os de seus clientes e
estes não se vexam em não comparecer e não avisar, embora tenham
celular.
Para incomodar e
tumultuar, o celular aí está, mas para comunicar de fato, seu
proprietário num tá nem aí!