PONTO DE VISTA DO BATISTA

Cinqüentenário da CEMIG

Por menos intensa que seja uma vida em realizações, chega um momento em que certos acontecimentos nos chamam a atenção para o passado, e, ali encontramos referências com as quais nos ligamos, de alguma forma. Só então nos damos conta do extenso caminho já percorrido, em condições variáveis, desde o otimismo às vezes alienante até a desesperança rasteira que quase nos faz esquecer um dos propósitos da vida, que é o de prosseguir sempre. O cinqüentenário da Cemig é um marco importante a extrapolar a economia mineira, pois a partir de sua implantação a empresa serviu de modelo para todo o programa de eletrificação nacional. A criação da empresa foi mais uma das muitas luminosas (sem trocadilho) iniciativas de Juscelino Kubitscheck , então governador de Minas, que mudaram a cara deste país. O ato de ligar o interruptor e acender a lâmpada (acende-se a lâmpada, não a luz) da sala, que hoje não passa de algo corriqueiro como abrir os olhos pela manhã, ao acordar, era uma incerteza angustiante há cinqüenta anos: será que há "luz"?, era a pergunta que se fazia mentalmente. Quase voltamos a essa situação na crise energética que nos deu o "apagão" no ano passado, mas isso é outra história escrita tão somente pela omissão, incapacidade e falta de visão da atual geração de políticos, mais preocupados em se fazerem alumiados lá fora do que governar cá dentro. O fato é que há cinqüenta anos, o Brasil deu o primeiro passo firme para a exploração de seu potencial hidroelétrico e se deslanchou desde então.

Num dia qualquer, de 1952 ou 1953, em trânsito entre a infância e a adolescência, percebi, enquanto brincava com outros garotos defronte a capela de Santo Antônio, que algo diferente havia na paisagem em volta do campo de futebol do Cruzeiro do Sul, em Cachoeira do Campo. De longe, podíamos ver alguns pontos vermelhos, logo identificados como bandeirolas. Da constatação do fato, viajamos com a imaginação na tentativa de encontrar uma explicação para aquelas bandeiras. Cachoeira do Campo era um "brocotó" poeirento ou barrento, conforme a estação, perdido entre as esperanças de uns poucos visionários e o pessimismo da maioria que não via futuro além das ruínas que orlavam a, hoje buliçosa, Praça Coronel Ramos então, por nós, chamada de "Garagem". Apesar de em fase de conclusão a rodovia cascalhada que, mais tarde, asfaltada viria ser a Rodovia dos Inconfidentes, o deslocamento a Ouro Preto ainda era uma aventura. O cachoeirense daquele tempo sonhava com a ferrovia cuja conexão mais próxima era a Estação D. Bosco, quatorze quilômetros distante, onde ele embarcava e desembarcava ao arriscar por os pés mais longe, o que então se constituía em verdadeira odisséia; padecia da nostalgia em relação à falta da ferrovia, assim como dizem do mineiro em relação à falta do mar. Por isso, qualquer movimento, que lembrasse serviço de engenharia de campo, era associado à construção de um ramal ferroviário que servisse à localidade. O caso das bandeiras vermelhas fincadas no alto do Cruzeiro não fugiu à regra. Quando se soube que o objetivo seria a construção de uma linha de transmissão para levar energia elétrica aos fornos eletrolíticos em Saramenha, veio o desapontamento. Servida por uma deficiente companhia de força e luz local, Cachoeira do Campo necessitava daquele serviço também, mas a ferrovia era ainda o sonho maior.

O que creio ter sido a primeira rede de transmissão da Cemig esteve de pé até há bem pouco tempo, embora já desativada. Ao contrário de hoje, sustentada por grandes e reluzentes torres metálicas, aquela se apoiava em torres de madeira (diziam que seria aroeira) quimicamente tratada. Pena que tenham derrubado todas as torres e nenhuma tenha ficado como monumento ao cinqüentenário da Cemig. Seria um monumento original, em todos os sentidos, ao que poderíamos denominar epopéia daquela época, e ao espírito desenvolvimentista de nossos antepassados.

nbatista@uai.com.br

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