Cenas e sons do passado
Ao termos informação sobre
a primeira intervenção programada para o ordenamento do trânsito em
Cachoeira do Campo, somos levados a algumas décadas no passado para,
de lá, tentar visualizar como seria este distrito em futuro não mui
distante. Com toda capacidade imaginativa disponível, não
conseguíamos ver muito além do que era a Cachoeira, maltratada pelo
tempo e pelo descaso, como pequeno aglomerado urbano fadado ao
desaparecimento, seguindo o caminho de tantos outros, depois de
viver ciclos mais favoráveis no decorrer da história.
Em diversas oportunidades,
aqui mesmo, já registramos características locais vivenciadas por
nós outros há mais tempo ligados a este mundo, mas cremos não ser
repetitivos para mais que pequeno grupo de leitores. Não sabemos se
ainda há entre nós quem tenha visto a chegada do primeiro veículo
motorizado à, hoje, Praça Coronel Ramos, que no passado era chamada
"garagem", porque justamente ali foi a primeira garagem de Cachoeira
do Campo. Contavam que a chegada do primeiro carro foi fato de
grande repercussão, tendo vindo gente de locais distantes só para
conhecer a "novidade". Não podia ser outra a reação: uma carruagem a
se deslocar por seus próprios meios era muita tecnologia a ser
assimilada por civilização que, em seu processo de desenvolvimento,
tinha até então apenas a força animal como meio propulsor no
encurtamento das distâncias. Durante muitos anos, o número desses
novos veículos não foi além de algo em torno de seis, mesmo porque
as ruas não favoreciam o tráfego, ficando seu uso restrito às
primitivas estradas, mais parecidas caminhos de cabrito.
A única rua calçada era a
Padre Afonso de Lemos, popularmente chamada ladeira; mas era um
calçamento irregular, ao extremo de seu percurso ser feito em quase
quinze minutos, se não quisesse ter o carro quebrado nos primeiros
saltos sobre as pedras. A Rua Santo Antônio, ou "Rua de Baixo", e
também a Ruas das Mercês eram ainda piores com seus "degraus",
recurso português usado para suavizar ladeiras e minimizar a erosão
causada pelas enxurradas. Pela Santo Antônio, o carro-de-bois era o
único veículo a trafegar, mesmo assim com grande dificuldade na
transposição dos "degraus". As demais ruas eram uma sucessão de
buracos que, no período chuvoso, se transformavam em poças de lama.
Como a prefeitura só fazia a limpeza (roçada e capina) das ruas, às
vésperas das celebrações da Semana Santa, por sua vez só realizadas
de dois em dois anos, o mato que crescia nos cantos dava frutos e
lenha. No trecho final da Rua Santo Antônio, acima do ponto onde
está a Rua do Ouro, cortavam-se paus de aroeira com até seis
centímetros de diâmetro. Em tempo de fogão a lenha, moradores
próximos e dispostos faziam a festa! Pela Rua Santo Antônio passavam
bois, passavam boiadas! O tamanho destas era medido pelo tempo gasto
na passagem por determinado ponto. Costumava passar bois por cerca
de dez minutos! Também passavam tropas, puxadas por mulas cheias de
enfeites (mula madrinha), entre estes o peitoral orlado de
cincerros. O tilintar desses cincerros chamavam nossa atenção de
longe para o passar da tropa, que transportava de tudo de cidade em
cidade, de região em região, isso em todo o país.
E Cachoeira já foi grande
centro de tropeiros, que transportavam para outros pontos a grande
produção de artigos em couro, destinados justamente a tropas e
montaria.
Os sons mais ouvidos eram
gritos de crianças, o cantar dos galos, latido de cachorros, o canto
das mulheres (e como cantavam as mulheres!), o assovio dos homens
nas ruas, o badalar dos sinos e o som de instrumentos musicais!