Chinelada te conserta!...
Janeiro, calor sufocante
no terminal rodoviário atulhado de gente que volta das festas de fim
de ano, ou que sai de férias em busca da praia, da aventura ou do
puro ócio. Andar é um sacrifício a mais, tendo que se desviar de
malas, sacos, sacolas, mochilas e uma "trenheira" sem fim, que
mineiro costuma carregar quando se mete a viajar, nem que seja daqui
pr’ali. Grupos enormes, de familiares ou amigos, praticamente
acampados, esperam há longas horas pela hora do embarque, a julgar
pela sonolência de pessoas derreadas entre bagagens que, incluem
aquelas malas antigas, de forma retangular, curiosamente envolvidas
por capa de tecido.
Misturado ao burburinho
daquela massa heterogênea e à voz molenga da locutora do serviço de
som, destacam-se, de repente, gritos de criança. Uns e outros
procuram no ar a direção dos gritos que – desculpem a comparação um
tanto forte – parecem de "tués" (porco) a caminho de virar toucinho,
lingüiça, chouriço e ingredientes para feijoada. Pela atenção
focalizada de pessoas no outro extremo da estação, não demoro a
localizar a fonte do berreiro, um garotinho (não confundir com o
político fluminense) de dois ou três anos seguro pela mão de jovem,
pressuposta mãe, de não mais que vinte anos. O pirralho proporciona
espetáculo bizarro para muita gente ávida por algo diferente da
rotina. Preso pela mão da mãe que carrega duas grandes bolsas com a
outra mão, ele esperneia e tenta chutar as pernas da que o segura,
sem parar de gritar um só instante, como se vítima de tremenda
pancadaria. A jovem mãe, que demonstra tranqüilidade e paciência até
demais, lhe solta a mão por instante, o que é aproveitado
imediatamente pelo rebelde; não para correr, como se teme a
princípio, mas para um "show" de sapateado e rolar no chão.
Novamente a mãe o retoma e se dirige para outro ponto dentro do
terminal. A princípio ele anda, depois se solta como um saco de
batatas arrastado, com a diferença que este não grita e não tem pés
para bater no chão. Noto que de seus olhos não sai um lágrima, o que
demonstra ser a clássica birra e não choro por algo insultante ou
desconfortante à natureza infantil.
Num átimo a máquina da
memória dá retrocesso e me vejo na última fase da infância a rezar a
Ladainha de Nossa Senhora, no cumprimento das muitas obrigações
religiosas. Em certo momento declinava-se Regina sine labi
concepta (Rainha concebida sem pecado), que a gaiatice
infanto-juvenil traduzia como "Regina, chinelada te conserta".
Era disso que o pequeno
tirano precisava: umas boas chineladas na bunda! Se pensamentos
pudessem ser lidos, hipócritas me reprovariam, sei disso. Tanto é
verdade que poucos dias depois, soube-se de lei, em vias de
aprovação, que proíbe aos pais a simples palmada e prevê prisão aos
que a contrariarem. É claro que melhor seria o simples diálogo em
lugar do corretivo físico, mas a diversidade na natureza do ser
humano inclui aqueles cujo nível mental não permite compreender, a
priori, o preço ou custo de cada ato. Assim como se queima, levada a
mão à chama da vela, punição proporcional deve ser a resposta à
transgressão dos pequenos, pois eles têm de aprender desde cedo que,
sob o sol, nada existe de graça, ou seja, tudo exige compensação.
Não há exceção. Proibir aos pais a aplicação de corretivos nos
filhos, na medida e momentos certos, é impedir que estes últimos
assimilem a compensação, uma das mais importantes leis universais.
Não é à toa que cresce o número de corruptos, desajustados sociais,
tiranetes, assim como a demanda por mais repressão e vagas nos
presídios. E a impunidade campeia entre privilegiados!
Deve-se dizer não à
agressão pura e simples e à pancadaria, mas proibir o corretivo de
natureza paterna é também retirar parte da autoridade, já tão
combalida. Vendo a bandalheira praticada, impunemente, por tantos
políticos, posso quase afirmar que seus pais deixaram de lhes
aplicar boas e merecidas chineladas!