PONTO DE VISTA DO BATISTA

O chocante é que interessa

Sou quase convicto que, ao abrir o jornal, a maioria, inconscientemente, não busca pelo noticiário ordinário, o banal ou rotineiro que preenche noventa e nove por cento das páginas, mas, o chocante, surpreendente, ou - quem sabe? – o insólito. É inerente à natureza humana a atração pelo diferente, razão pela qual fazem sucesso os que desafiam perigos, arriscam a própria vida na realização do considerado impossível pela grande maioria, inserindo-se como modalidade suave dessa classe de desafios os esportes radicais. Os aplausos aos desafiantes vencedores nem sempre correspondem ao que vai no íntimo, onde o desejo de ver tragédias supera o que a realidade oferece. Enquanto assiste a espetáculo com grandes probabilidades de acidente grave, o espectador se divide no fundo do seu ser, onde uma luta se trava entre o desejo de consecução do sucesso e a expectativa de possível tragédia.

Na leitura do jornal, a expectativa é a mesma, com a diferença que aí entra com mais cotação o lado positivo, a vitória do bem sobre o mal, da vida sobre a morte, do sucesso impossível diante do fracasso francamente pré-admitido. Em primeiro momento, a leitura das grandes tragédias humanas, como as resultantes de fenômenos naturais, alimenta a curiosidade mórbida. Quanto maior a extensão dos danos e mais alto o número de vítimas, mais curiosidade se desperta no íntimo das pessoas. Passado o impacto doloroso, outra face da curiosidade se mostra com a possibilidade de vítimas escaparem à morte, contrariando todas as probabilidades consideradas. E nas tragédias mais recentes, representadas por terremotos, tornados e ondas gigantes como as ocorridas no sudeste asiático, a vida muitas vezes venceu, revelando assim que, na mesma proporção da fragilidade, a resistência da vida humana nos chama a atenção para a força de que somos dotados por Deus, sob a capa do que se convencionou chamar milagre. Nessas ocasiões, um conjunto de fatores e circunstâncias interage, à revelia do que pensamos, imaginamos, programamos ou fazemos, para que a vida continue.

E certamente foi isso que aconteceu ao homem que caiu na linha do metrô, em São Paulo, quando se aproximava um trem. Caído e imóvel entre os trilhos, escapou de morrer estraçalhado! Curiosamente e para a frustração dos caçadores do incomum, a notícia do fato não passou de pequena nota em poucos jornais.

Do imponderável nas forças da natureza, causas fortuitas e circunstâncias adversas, passemos ao determinado pelo pensamento e vontade humanos, para o bem ou para o mal. Do mesmo modo que as tragédias, práticas delituosas e criminosas atraem a atenção para as páginas policiais úmidas de sangue, sem esquecer as de política com todas suas mazelas e corrupções, nas quais o eleitor gostaria de realizar sua vingança vendo o fim político daqueles que o traíram. Sobra um pouco de espaço para o bem-feito, conquistas científicas e tecnológicas com resultados positivos para o bem estar comum.

Paradoxalmente, estes fatos que podem afetar diretamente a vida de cada um merecem pouca ou nenhuma consideração, tanto na "produção" quanto no "consumo" da notícia. Exemplo de conquista desse tipo é a criação do mosquito anti-malária, segundo pesquisa em curso na Fundação Oswaldo Cruz. Tal inseto permitirá combate mais eficiente à malária, que impõe riscos à saúde de cerca de dois bilhões e meio de pessoas no mundo.

Pena que a mesma técnica não sirva para criar o político transgênico, incorruptível, ético e competente. Enquanto isso não acontece, apelemos para o VOTO ZERO.

nbatista@uai.com.br

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